IPEAFRO PARTICIPA DE EVENTO COM PRÉ-CANDIDAT@S NEGR@S NA OAB-RJ

Milsoul Santos recita poesia “Neymar” em evento organizado na OAB-RJ: pré-candidat@s negr@s dão o seu recado. Foto: Julio Menezes Silva

A Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra no Brasil (Cevenb) da OAB/RJ promoveu, no dia 13 de junho, debate com diversos pré-candidat@s negr@s, de vários partidos, às eleições de 2018. A ideia foi abrir espaço para que estes falassem sobre seus projetos e a respeito da reparação da escravidão, com o objetivo de construir uma unidade em torno das propostas legislativas a serem encaminhadas sobre o tema. O encontro se realizou no Plenário Evandro Lins e Silva e contou com a presença de pré-candidatos ao Senado, à Câmara e à Assembleia Legislativa estadual.
 
A mesa de abertura foi composta  pelas representantes do Movimento de Mulheres Negras e da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Karla Lima e Claudia Vitalino, respectivamente. A integrante da Cevenb Flávia Pinto Ribeiro foi a mediadora do evento.  O coordenador de comunicação do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), Júlio Menezes Silva, apresentou a proposta de dar visibilidade às candidaturas d@s negr@as nos meios de comunicação do IPEAFRO. Milsoul Santos, também do IPEAFRO, fez intervenção artística recitando no palanque a poesia Neymar. Glauce Pimenta Rosa cantou o hino nacional à capela e apresentou-se fazendo uma evocação ao orixá Oxum. 
 
“Esse encontro registra duas consignas importantes: a mais do que necessária busca pela reparação da escravidão negra, por isso uma comissão nesta e em outras seccionais e nas subseções, e a apresentação das pré-candidaturas negras, o que devemos saudar como auspicioso, para que essa pauta não fique esquecida e secundarizada como sabemos que acontece no Brasil”, afirmou o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem, Marcelo Chalréo.
 

Membro da Comissão de Direito Constitucional (CDC) da Seccional, Renan Figueiredo também participou da atividade. “Sou um defensor das cotas para negros no que toca a candidaturas a cargos legislativos de modo geral. Representamos 54% da população brasileira, e no Congresso Nacional não passamos de 5%. A CDC está empenhada e disposta a colaborar com as demais comissões na luta pela redução da desigualdade social e racial no Brasil”, disse.

Com informações da redação da Tribuna do Advogado (OAB-RJ). 

O Caso do Homem Errado, no Cine Teatro Recreio, em Rio Branco (AC)

O Cine Teatro Recreio traz neste mês de junho a exibição do documentário O caso do Homem Errado. Abordando temas atuais como direitos humanos e preconceito racial, o documentário, produzido e dirigido por Camila Moraes, narra a história do operário negro Júlio César de Melo Pinto, executado pela Brigada Militar de Porto Alegre, em 1987. .

A exibição do documentário no Estado, premiado no Festival de Cinema de Gramado de 2017, é resultado da articulação do governo do Estado, por meio do gabinete da vice-governadoria, Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), Fundac e Fundação Elias Mansour (FEM). 

As informações são da Agência de Notícias do Acre.

Wole Soyinka: compromisso e compaixão

ARQUIVO: Wole Soyinka e Abdias Nascimento (Acervo IPEAFRO)

Wole Soyinka estaria no Brasil neste 12 de junho de 2018 acompanhando a comitiva de Ooni de Ifé, Rei de Ifé, Nigéria, ao Rio de Janeiro.  Um imprevisto impediu a sua visita. Porém,  (re) visitar a obra do primeiro africano a ganhar o Nobel de literatura é sempre uma tarefa revigorante. 

Em novembro passado, uma parceria entre a Bienal do Mercosul e a Feira do Livro de Porto Alegre permitiu a vinda de Soyinka ao Brasil. Na ocasião, Elisa Larkin Nascimento, diretora do IPEAFRO, esteve ao lado do nigeriano e de Gilberto Schwartsmann, presidente da Bienal do Mercosul,  no encontro que encerrou a Feira do Livro. Assista o vídeo aqui

Além disso, Larkin Nascimento escreveu um artigo sobre a chegada do “espírito indomável” ao País, publicado na Carta Capital. Boa leitura!

Wole Soyinka: compromisso e compaixão

por Elisa Larkin Nascimento*

Para chegar de Lagos, Nigéria, até a cidade sagrada de Ilé Ifé, onde tive o privilégio de morar durante um ano, passa-se pela capital do estado de Ogun. Cidade de uma beleza única abrigada entre colinas, Abeokuta nos contempla do alto de suas rochas enormes. Dali emana uma força telúrica que nos exige atenção especial. É o axé de Ogum, que chega ao Brasil incorporado na pena e na imagem de Wole Soyinka. O gigante das letras africanas vem encerrar a Feira do Livro de Porto Alegre, graças à parceria entre a 11ª Bienal do Mercosul, que ocorrerá em 2018, e a Câmara Rio-Grandense do Livro.

Espírito indomável cuja vivacidade não cessa de espantar, Wole Soyinka transita entre a criação literária e o ativismo político como um verdadeiro filho de Ogum.

Instaurador da metalurgia do ferro, Ogum preside as transições da humanidade ao conquistar as novas tecnologias. Guerreiro, ele expande os territórios de seu povo. Mais que força da natureza, como são todos os orixás, Ogum incorpora a superação das barreiras cósmicas, o avanço para novas dimensões de existência. Legítimo filho dele, Soyinka é uma força lírica e lutadora a vencer barreiras, tanto aquelas erguidas pelo colonialismo como outras criadas por opressores contemporâneos. 

Eu o conheci em Dacar, Senegal, em 1976,  quando Soyinka fundava a União de Escritores Africanos, esforço de superar obstáculos políticos e linguísticos entre países confinados em fronteiras traçadas pelo invasor europeu.

Ali estavam algumas das maiores vozes literárias da África. Mas Soyinka não reunia apenas escritores do continente. Aliado a Cheikh Anta Diop e a Carlos Moore, ele trazia escritores da diáspora. Assim eu pude participar ao lado de meu marido, o brasileiro Abdias Nascimento, um dos convidados.

Das fronteiras que Soyinka se põe a romper, talvez a mais significativa seja a que se ergue entre a África e sua diáspora. Soyinka criticava o que chamava da “consciência salina” de alguns africanos: o hábito de restringir o conceito de identidade africana ao território continental. Além de ressaltar que a noção de “povo negro” para além das identidades étnicas existe em várias línguas africanas, cultivava compaixão e solidariedade com aqueles que foram levados embora e os descendentes deles, hoje discriminados em sociedades herdeiras do escravismo transatlântico. A mesma solidariedade o movia a combater como poucos o regime do apartheid na África do Sul e na Namíbia, bem como os desmandos de Estados opressores como o que o aprisionou na Nigéria. 

Terra de Soyinka, Abeokuta é a cidade de Yemonjá, deusa dos mares e mãe de todas as águas e orixás. Reverenciar as forças da natureza como divindades significa um profundo compromisso com o meio ambiente, fazendo da tradição dos orixás um berço do pensamento ecológico.

Em 2012, Soyinka visitou o Brasil na ocasião do Rio +20. Compareceu à tenda da matriz africana e, em companhia da Mãe Beata de Iemanjá e outras autoridades presentes, reafirmou esse compromisso em ato coletivo.

Naquele momento ele vinha propor ao Brasil uma parceria para realizar o grande encontro de brasileiros negros com seus parentes em Lagos, onde vive uma numerosa comunidade de descendentes de brasileiros retornados à África.

O Festival de Herança Negra de Lagos faria, em 2013, uma homenagem ao Brasil. Soyinka queria uma delegação de peso a representar a cultura afro-brasileira em celebração conjunta do Carnaval “brasileiro” em Lagos.

O Brasil assumiu em tese a parceria, mas deixou de comparecer. A prometida delegação não se materializou por falta de compromisso do Ministério da Cultura com sua própria palavra. A celebração à herança brasileira na Nigéria realizou-se no terreno da antiga penitenciária onde muitos presos políticos foram aprisionados, transformado em um nobre espaço de cultura e lazer: o Freedom Park de Lagos.

A presença brasileira ficou por conta do legado de Abdias Nascimento, cuja obra artística Soyinka conhecia há décadas. Uma exposição das imagens pictóricas de Abdias, uma performance de sua peça “Sortilégio: Mistério Negro” e um simpósio sobre sua produção intelectual compuseram a contribuição brasileira àquele Festival.

Outro festival, o Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas, realizado em Lagos em 1977, aproximara Soyinka e Abdias quando o regime brasileiro, que lhe havia cassado o passaporte, tentou impedi-lo de participar no colóquio, fórum intelectual e político do certame.

Soyinka demonstrou sua solidariedade ao pronunciar-se contra a conivência do Estado nigeriano com o veto do governo brasileiro. Seu posicionamento está registrado em prefácio do livro “O Genocídio do Negro Brasileiro”, versão em português da tese que Abdias apresentou informalmente àquele colóquio, na qualidade de observador (publicado em 1978 pela Paz e Terra, o livro ganhou neste ano uma nova edição pela Editora Perspectiva).

Logo em seguida, nos encontramos com Soyinka novamente em Cali, Colômbia, no 1oCongresso de Cultura Negra das Américas, quando os negros da América chamada Latina se reuniram de forma inédita para discutir o racismo e o legado africano na região. Soyinka foi detido e pernoitou no aeroporto de Lima, no Peru, mas fez questão de comparecer. Assim, sua presença em Porto Alegre retoma uma antiga caminhada de compromisso com seus irmãos na diáspora.

* Doutora em psicologia pela USP e mestre em direito e em ciências sociais pela Universidade do Estado de Nova York (EUA), a autora dirige o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) no Rio de Janeiro

GRATUITO: baixe “História Geral da África” em 8 volumes e 7357 páginas

A Unesco e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar, 2010) publicaram e disponibilizaram a coleção História Geral da África. São 8 volumes que cobrem desde a pré-história do continente africano até sua história recente. Ao todo, 7357 páginas de um amplo panorama das civilizações africanas. Baixe a sua versão abaixo e vá na página da UNESCO e pega a sua versão, em PDF, clicando aqui.

Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.

Download gratuito (somente na versão em português):

PALESTRA NO MASP: Abdias Nascimento, uma história Afro-atlântica

Abdias Nascimento (ao centro, com livro no colo) leciona para integrantes do Teatro Experimental do Nengro, em 1944

Elisa Larkin Nascimento apresentou a palestra  Histórias afro-atlânticas: Abdias Nascimento no Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 9 de junho. Em pauta: a contextualização histórica do movimento social negro no Brasil e no mundo, a fundação do Teatro Experimental do Negro (TEN) e sua atuação para além dos palcos, o Museu de Arte Negra (MAN) e a criação artística-plástica de Abdias e outros artistas.
 
O evento foi um aquecimento para a exposição Histórias afro-atlânticas, que será realizada no MASP e no Instituto Tomie Ohtake entre os dias 29 de junho e 21 de outubro. O IPEAFRO participa da exposição com três obras de arte e uma fotografia, que fazem parte do Acervo IPEAFRO.
 
 
 
 
 
 

IPEAFRO_AN_067 Abdias Nascimento, Okê Oxossi. Búfalo, EUA, 1970 Técnica: Acrílico sobre tela Dimensões sem moldura:  92 x 61

IPEAFRO_MAN_042 Otávio Araújo, Cristo Favelado. Rio de Janeiro, 1955 Técnica: Óleo sobre tela Dimensões sem moldura:  53 x 64

IPEAFRO_AN_019 Abdias Nascimento, Exu Dambalah. Búfalo, EUA, 1973 Técnica: Acrílico sobre tela Dimensões sem moldura:  102 x 51

 

 

Foto: Abdias Nascimento discursando na Serra da Barriga, em Alagoas, em 1983

 
 
Em 1944, Abdias Nascimento, Aguinaldo Camargo e outros artistas e intelectuais negros criaram, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro (TEN). Além de sua notável atuação teatral, o TEN organizava iniciativas cívicas e culturais, entre elas o 1º Congresso do Negro Brasileiro (1950), que aprovou uma resolução afirmando a necessidade de se criar um Museu de Arte Negra (MAN). O TEN assumiu o projeto e realizou várias iniciativas junto a artistas negros e ao mundo das artes no Brasil. A partir de seu trabalho como curador desse projeto, Abdias Nascimento desenvolveu sua própria criação artística. O IPEAFRO guarda cerca de 600 peças doadas ao projeto MAN por artistas brasileiros e estrangeiros, além de aproximadamente 160 telas e alguns desenhos de Abdias Nascimento. O projeto TEN/MAN teve significativa atuação junto à África e sua diáspora, trabalho a que Abdias Nascimento deu continuidade através de seu ativismo pan-africanista até 2011.

 

SOBRE A PALESTRANTE
Elisa Larkin Nascimento é mestre em Direito e em Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Nova York (EUA) e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Preside o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), que desde 1981 idealiza e organiza cursos, exposições e fóruns de educadores sobre o ensino da história e cultura de matriz africana. Atualmente, ela coordena o tratamento técnico do acervo documental, iconográfico e museológico de Abdias Nascimento e do IPEAFRO. Curadora de exposições que mostram o conteúdo do acervo, ela escreveu e organizou diversos livros, inclusive os cinco volumes da Coleção Sankofa. 

LINK NO SITE:
https://masp.org.br/palestras/abdias-nascimento-uma-historia-afro-atlantica

Texto: co  informações do site do MASP.

Livro “O crime do Cais do Valongo”, por Luiz Antônio Simas

O início de “O crime do Cais do Valongo”, segundo romance de Eliana Alves Cruz, autora do premiado “Água de barrela”, é um clássico das tramas policiais. Nos tempo de Dom João VI, o corpo de um próspero negociante da região do Valongo é achado em uma ruela carioca. A partir daí, a história se desenvolve, pistas vão sendo deixadas e a narrativa, habilmente construída, circula naquela encruzilhada entre a História e a ficção que pode nos fazer cair na tentação de enquadrar o livro como um romance histórico-policial. Acontece que “O crime do Cais do Valongo” é muito mais do que isso.

Narrado a partir das vozes de dois personagens, o livreiro mestiço Nuno Alcântara Moutinho e a moçambicana escravizada Muana Lomué, o romance apresenta um relato poderoso, cheio de sutilezas. É o cotidiano de um Rio marcado pelo horror da escravidão e, ao mesmo tempo, pela potência da cultura das ruas e da incessante reconstrução de sociabilidades produzidas pelas descendentes de africanas e africanos sequestrados do lado de lá do Atlântico.

Há quem possa ver no romance influência do realismo fantástico. Parece-me limitado ler o livro a partir dessa referência. O que a autora faz é dominar com maestria os códigos de percepção de mundo dos subalternizados, entendendo a ancestralidade, o corpo mítico como modelador de condutas e os procedimentos de ligação entre o visível e o invisível, expressos em toda a sorte de mandingas, como componentes da sofisticada cosmogonia e dos modos de invenção da vida dos povos saídos das Áfricas. A tragédia da diáspora, afinal, também é um empreendimento inventivo de rara potência.

Outro mérito poderoso do livro reside na apresentação de uma África pouquíssimo vista nas nossas letras: aquela da parte oriental do continente. A unidade portuguesa já é uma ficção. Minhotos, trasmontanos, beirões, alentejanos, algarvios, estremenhos, ribatejanos, açorianos e madeirenses — que normalmente não se encontrariam nem em Portugal — aqui se encontram e redefinem dinamicamente suas culturas, entre violências tantas e afetos vários, no contato conflituoso e/ou negociado com negros que não se viam como africanos, mas como membros de sua aldeia: mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, jalofos, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás ibos, ijós, calabaris, teques, bamuns, ijexás, anzicos, congos, andongos, songos, pendes, lenjes, ovimbundos, nupês, ovambos, macuas, mangajas, e outros tantos.

Não se imagine, todavia, que o livro caia no didatismo rasteiro que prende a narrativa com âncoras pesadas. A história é fluente, extremamente bem contada, mescla figuras reais — como o Intendente Geral e a cantora lírica Joaquina Lapinha — com inventadas, mergulha nas notícias da “Gazeta do Rio de Janeiro” e transforma a cidade em personagem fundamental da trama.

A cidade cindida pela Pedra do Sal, que tentou afastar da Corte o horror do comércio negreiro feito pelas bandas do Valongo, é também a cidade cerzida por aqueles que tiveram a sua humanidade negada pela coisificação e o sequestro.

Um livro escrito por uma autora negra, com protagonistas negros e contado a partir dos saberes afro-cariocas, já seria importante em um país em que o mercado editorial reproduz nossa desigualdade gritante. Além disso, “O crime do Cais do Valongo” é literatura da melhor qualidade e firma Eliana Alves Cruz como uma voz poderosa e contundente da literatura brasileira. Como diz em certo trecho a protagonista Muana, “uma mulher do meu povoado jamais poderia deixar seus antepassados de lado”. A literatura de Eliana faz exatamente isso.

* Luiz Antonio Simas é escritor, historiador e colunista do GLOBO

“O crime do cais do valongo”
Autor: Eliana Alves Cruz
Editora: Malê
Páginas: 202
Preço R$ 42

Texto: jornal O Globo.

África exige da Europa restituição de tesouros roubados

Embora de acordo com a etiqueta os três totens expostos no Museu Quai Branly de Paris sejam uma “doação”, seu país de origem, o Benim pede a restituição do que considera um tesouro roubado durante a época colonial.

Na realidade, essas imponentes estátuas foram pegas em 1892 pelas tropas francesas do general Alfred Amédée Dodds durante o roubo do Palácio de Abomey, a capital histórica do atual Benim.

Segundo o Benim, na França existem entre 4.500 e 6.000 objetos que pertencem ao país, incluindo tronos, portas de madeira gravada e cetros reais.

Do British Museum de Londres ao Museu Tervuren da Bélgica, numerosas coleções europeias transbordam de objetos de arte chamados “coloniais”, adquiridos em condições muitas vezes discutíveis.

Naquela época, militares, antropólogos, etnógrafos e missionários que percorriam os países conquistados voltavam para casa com recordações compradas ou trocadas, e às vezes roubadas.

Inclusive o ex-ministro francês de Cultura André Malraux foi condenado nos anos 1920 no Camboja por ter tentado arrancar os baixo-relevos de um templo khmer.

A controvérsia não é nova e não concerne unicamente à África. Há décadas a Grécia exige ao Reino Unido, em vão, a restituição dos frisos do Partenon.

Mas o continente africano foi especialmente afetado.

‘Hemorragia’ patrimonial

“A África sofreu uma hemorragia de seu patrimônio durante a colonização e inclusive depois, com o tráfico ilegal”, lamenta El Hadji Malick Ndiaye, conservador do museu de arte africana de Dakar.

Mais de 90% das peças importantes da África subsaariana estão fora do continente, segundo os especialistas. A Unesco apoia há mais de 40 anos a luta dessas nações para que lhes restituam seus bens culturais desaparecidos durante a época colonial.

Para Crusoe Osagie, porta-voz do governador do estado de Edo, na Nigéria, não é normal que seus filhos tenham que ir ao exterior para admirar o patrimônio de seu país. “Esses objetos pertencem a nós e nos tiraram à força”, destaca.

Assim como o Benim, cujo pedido de restituição foi negado pela França em 2016, outros países africanos receberam negativas.

Contudo, houve exceções, como em 2003, quando o museu etnológico de Berlim devolveu uma preciosa estátua de um pássaro ao Zimbábue, ex-colônia britânica.

Os dirigentes africanos esperam agora uma mudança de atitude da França, depois que o presidente Emmanuel Macron disse em novembro em Burkina Faso que dará “as condições para uma devolução do patrimônio africano à África” em um prazo de cinco anos.

Uma “ruptura histórica”, segundo o ministro camaronês da Cultura, Narcisse Mouelle Kombi. Seu país, colonizado sucessivamente por Alemanha, França e Grã-Bretanha, “é um dos principais interessados”, afirma.

“Macron se comprometeu com os africanos a mudar o que tem sido as cinco últimas décadas da política de nossos museus: encontrar as artimanhas jurídicas necessárias para evitar a devolução” das peças, observa o historiador Pascal Blanchard, especialista na época colonial.

O Museu Quai Branly de Paris não quis responder às perguntas da AFP.

Paternalismo

Mas ainda existem muitos obstáculos técnicos e jurídicos, admitem os dois especialistas que o presidente Macron nomeou em março para concretizar sua promessa.

Para se negar a devolver as obras, os especialistas argumentaram durante anos que os museus africanos não têm as condições adequadas de segurança e conservação.

Mas de acordo com o conservador do museu de Dakar, El Hadji Malick Ndiaye, se trata de um velho debate, inclusive “paternalista”. Na África “existem muitas instituições de museus, na África do Sul, no Quênia, no Mali, em Zimbábue”, assegura.

O British Museum propôs empréstimos à Nigéria e à Etiópia, saqueadas durante uma expedição britânica em 1868, mas resiste a restituir os bens.

O debate está mais avançado na Alemanha, um país sensível a isso pelos espólios da época nazista e os roubos do Exército Vermelho.

Vários museus estão trabalhando para identificar a origem de milhares de obras da época colonial, quando a Alemanha controlava Camarões, Togo e Tanzânia. É o caso do Museu Humboldt Forum, que abrirá em breve em Berlim e especificará a procedência dos objetos.

Texto: Portal G1 com France Press.