IPEAFRO NO X COPENE

O IPEAFRO desembarca em Uberlândia para o X COPENE – Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as, organizado pela Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) e realizado pela Universidade Federal de Uberlândia. O X COPENE reunirá artistas, escritores, professores, pesquisadores e pessoas interessadas no tema das relações étnico-raciais e da história e cultura afro-brasileira e diaspórica.

O objetivo do X COPENE é divulgar, circular e promover a produção científica de estudiosos das temáticas vinculadas à população negra, criando um espaço de diálogo entre os povos africanos e da Diáspora. Haverá debates e reflexões acerca da produção de conhecimento por intelectuais afrodescendentes nos diferentes campos e áreas do conhecimento científico e do saber, no contexto do enfrentamento às diversas formas de racismo, com ênfase no problema da segregação dos negros nos espaços sociais e na produção acadêmica. 

INICIATIVAS DO IPEAFRO NO X COPENE
Além de produzir uma série de eventos próprios dentro da programação do X COPENE, o IPEAFRO realiza vídeo institucional em parceria com a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), organizadora do X COPENE, com registro em vídeo das atividades do Congresso. A direção será de Osiris Larkin, ex-diretor do canal Parafernalha no YouTube com 10 milhões de inscritos. Radicado em Los Angeles, onde continua seu trabalho com cinema, ele vem ao Brasil especialmente para realizar esse documentário. 


PROGRAMAÇÃO DAS ATIVIDADES DO IPEAFRO NO X COPENE

 Dias 13/10/2018 a 12/11/2018
Exposição “Abdias Nascimento: a arte de um guerreiro”
Local: Hall da Reitoria da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Campus Santa Mônica
Abertura: 13/10, às 19h30
Visitação:
Dias 13 a 17/10, das 8h às 22h   
Dias 18/10 a 12/11, de segunda a sexta-feira, das 8 às 18h

Dia 13/10/2018 (sábado)
Palestra: “Abdias Nascimento: a Arte de um Guerreiro”
Local: Auditório 3Q – Campus Santa Mônica da UFU
Horário: 18h
Palestrante: Elisa Larkin Nascimento, Ph.D., IPEAFRO
Exposição de livros

Dia 13/10/2018 (sábado) (cont.)
Abertura oficial da exposição “Abdias Nascimento: a Arte de um Guerreiro”
Intervenção artística: Milsoul Santos
Horário: 19h30
Local: Hall da Reitoria da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Campus Santa Mônica

Dia 15/10/2018 (segunda-feira)
Horário: 20h
Local: Auditório 3Q – Campus Santa Mônica da UFU
Mesa: O Genocídio da População Negra
Prof. Dr. Kabengele Munanga – USP/UFRB
Prof. Dra, Sueli Carneiro, fundadora do Geledés Instituto da Mulher Negra
Profa. Dra. Elisa Larkin Nascimento – IPEAFRO
Exposição de livros

Dia 16/10/2018 (terça-feira)
Horário: 19h
Local: Auditório 3Q (Campus Santa Mônica)
Lançamento dos livros
O Genocídio do Negro Brasileiro, de Abdias Nascimento. Nova edição, com posfácio de Elisa Larkin Nascimento
Grandes Vultos que Honraram o Senado: Abdias Nascimento, de Elisa Larkin Nascimento
Homenagem póstuma à Georgina Ferreira do Nascimento com intervenção artística de Milsoul Santos
Homenagem e entrega do Troféu IPEAFRO Sankofa ao professor Kabengele Munanga pela prof. Dra. Diva Moreira
Intervenção artística: Milsoul Santos
Exposição de livros

Dia 17/10/2018 (quarta-feira)
Horário: 19h30
Local: Auditório 3Q (campus Santa Mônica)
Exibição do documentário de longa-metragem Abdias Nascimento Memória Negra, de Antonio Olavo
Comentários e roda de conversa com Prof. Dr. Kabengele Munanga – USP/UFRB e Profa. Dra. Elisa Larkin Nascimento – IPEAFRO
Exposição de livros

Parceiros
Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN
Governo do Estado de Minas
Universidade Federal de Uberlândia – UFU
Fundação Cultural Palmares/ Ministério da Cultura
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES/ Ministério da Educação
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ/ Ministério da Educação
Governo Federal

 IPEAFRO
O Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros é uma associação sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro que exerce sua ação em quatro áreas: ensino, pesquisa, cultura e documentação. Fundado por Abdias Nascimento em 1981, o IPEAFRO guarda seu acervo documental e museológico e com base nele exerce essa ação. Abdias Nascimento (1914 – 2011) foi um dos maiores expoentes da cultura negra e do pensamento afrocentrado no país e no mundo. Criou o Teatro Experimental do Negro e atuou como curador do projeto Museu de Arte Negra. Parlamentar, intelectual e homem de cultura, ele defendeu os direitos humanos e civis do povo negro no Brasil e no mundo. Foi indicado oficialmente ao Prêmio Nobel da Paz de 2010). Os valores culturais de matriz africana emergem com vigor nas suas criações plásticas e literárias como pintor, poeta e dramaturgo.

 

 

Boletim IPEAFRO | Especial Candidaturas Negras | Eleições 2018

Imagem do “santinho” de Abdias Nascimento com o slogan “Não vote em branco, Vote no Preto Abdias do Nascimento” da campanha política de 1950

Neste ano de 2018 o jornal Quilombo, órgão de comunicação do Teatro Experimental do Negro, completa 70 anos. Entre 1949 e 1950, suas páginas traziam artigos e matérias sobre a vida, problemas e aspirações do negro no Brasil e no mundo. Na décima e última edição, o periódico dirigido pelo jornalista Abdias Nascimento deu voz aos candidatos negros. A ideia era dar visibilidade na imprensa àqueles que postulavam cargos eletivos no pleito de 1950. Àquela época, a representatividade do negro, da mulher e do índio nas assembleias legislativas, no Congresso e no Senado era nula. Atualmente quase nada mudou e as exceções só confirmam a regra.

Para ajudar a reparar essa realidade, a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra no Brasil (CEVENB-RJ), em 14 de junho de 2018, organizou na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), evento para lançar e promover as pré-candidaturas negras nas atuais eleições. Na ocasião, o IPEAFRO manifestou-se publicamente oferecendo aos candidatos a possibilidade de apresentarem suas propostas por meio dos canais de comunicação do Instituto, retomando a iniciativa de Quilombo no final da década de 40.

O jornalista e coordenador de Comunicação do IPEAFRO, Julio Menezes Silva, no plenário da OAB-RJ, alertou que “o enfrentamento dos candidatos é tão grande dentro quanto fora dos partidos”. De lá pra cá, após as convenções partidária, nomes de peso não conseguiram confirmar suas candidaturas na corrida ao pleito de 2018. No caso mais notório, o babalorixá e doutor Ivanir dos Santos, referência no combate ao racismo e na defesa dos direitos humanos, ficou fora da disputa para o Senado Federal pelo Partido Popular Socialista (PPS) por causa de um acordo de caciques, como explica a reportagem da revista Carta Capital.

Outro caso de pleito majoritário foi o de Marcelo Monteiro, pré-candidato ao Senado pelo Partido Pátria Livre (PPL), liderado por João Goulart Filho. Monteiro se dedica, agora, à construção do Partido Popular de Liberdade de Expressão Afro-Brasileira (PPLE), cujo objetivo é “buscar o empoderamento dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, como um instrumento legítimo de defesa do estado democrático de direito e da soberania nacional, na construção de uma sociedade justa, igualitária e pluralista, capaz de tornar o Brasil um país mais forte, desenvolvido e equânime para todos os brasileiros”.

Nesse contexto, o simples fato de termos candidatos negros e negras confirmados nas eleições do próximo domingo, dia 7 de outubro, é motivo para orgulho. Mas nós queremos mais! Queremos representatividade, negra. Queremos mulheres no poder. E três dessas mulheres, do Rio de Janeiro, visitaram o IPEAFRO para entrevistas individuais. São elas: Luciana Xavier (PDT), Mãe Flávia Pinto (PDT) e Tainá de Paula (PC do B). O resultado desse esforço você pode ler abaixo. Outros tantos candidatos e candidatas nos contataram, mas a agenda apertada de campanha e a nossa pequena estrutura não nos permitiu realizar mais entrevistas. Deixamos registrado aqui o nosso sincero pedido de desculpas.

A todos os candidatos negros e negras deste país, desejamos boa sorte nas eleições. Vamos apoiar, vamos cobrar, vamos fiscalizar! E que vocês possam fazer jus à nossa ancestralidade, atendendo os anseios de nossos irmãos tão sofridos nesta terra chamada Brasil.

Bom voto, boa leitura.

Meu nome é Luciana Xavier, tenho 48 anos, sou mulher negra oriunda de uma comunidade do Rio de Janeiro, baseada em Honório Gurgel, (bairro) onde nasci, cresci, casei e criei uma filha. Moro nela (na comunidade) até hoje, com muito orgulho. Dentro dessa comunidade, eu fui crescimento e tendo interesse pelas pessoas.

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Eu sou uma mulher favelada, nascida e criada na Vila Vintém (RJ). Estudei como aluna bolsista do programa de ações afirmativas da PUC-Rio, sou socióloga, atualmente mestranda em sociologia política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ, sou gestora pública pela ENAP – Escola Nacional de Administração Pública.

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Eu já tenho a militância de anos no direito à cidade, no direito à moradia. Sou uma mulher das lutas urbanas. Nesse lugar de arquiteta e urbanista e percebendo um  pouco com o estado que o Rio de Janeiro está, não só falando de golpe, não só da conjuntura nacional mas falando da crise econômica que vivemos, de um acirramento da luta de classes onde há um milhão e duzentos mil desempregados no Rio de Janeiro.

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Luciana Xavier: ajudar o próximo e investir em saúde

CANDIDATA
Luciana Xavier

PARTIDO
PDT – 12.789

CARGO DISPUTADO
Deputada Estadual

ORGANIZAÇÃO
Julio Menezes Silva

FALA, LUCIANA!
Meu nome é Luciana Xavier, tenho 48 anos, sou mulher negra oriunda de uma comunidade do Rio de Janeiro, baseada em Honório Gurgel, (bairro) onde nasci, cresci, casei e criei uma filha. Moro nela (na comunidade) até hoje, com muito orgulho. Dentro dessa comunidade, eu fui crescimento e tendo interesse pelas pessoas. Eu sempre gostei de ouvir o meu próximo para ajudá-lo da forma que ele necessita, com uma abraço, com um carinho, com um aperto de mão, com uma brincadeira. Com isso, eu fui sobressaindo aos (olhos) dos outros de minha comunidade. (Quando) essas pessoas tinham alguma dificuldade, seja ela em qualquer âmbito, elas vinham me procurar, pedir ajuda, orientação. Eu era era muito nova, (tinha) menos de 20 anos de idade.

Quando eu comecei a dar um passo para fora da comunidade, na adolescência, o primeiro contato fora dessa comunidade foi com a cultura urbana, digamos assim. Aos 14 anos me interessei pela black music. Comecei a frequentar alguns bailes, que é o cotidiano que a gente usa na periferia. Nesse contexto, tive contato com o Disco Voador. Ali dentro, conhecendo algumas pessoas, o Zezinho Andrade, eu tive a oportunidade de ajudar algumas pessoas. Porque a maioria ali dentro era de homens e mulheres negros, e muitos ali não tinham uma auto-estima definida por serem negros, de comunidade. Com essa situação, de ter conhecido o Zezinho, ele me deu um norte. E a gente começou a trabalhar a autoestima das mulheres. Fizemos feiras, desfiles, dança e cultura de um modo geral.

Mas a idade foi chegando e a gente tem de se profissionalizar. E o meu interesse para eu poder ter uma profissão foi a área de saúde. Comecei a fazer estudos na área de saúde, mas n tinha dinheiro. Então o que que eu fiz? Fui ser empreendedora dentro da minha comunidade para eu poder ter fundo para os meus estudos, vendendo batatas-fritas. Isso cresceu ainda mais a minha popularidade dentro da comunidade.

Consegui pagar meus estudos, me profissionalizei numa gestora nessa área de saúde, onde trabalho numa unidade no Rio de Janeiro que é Hospital Mário Kroeff. Trabalho com oncologia e estou lá há cerca de nove anos. Essa é a Luciana Xavier e se interessou pela pela saúde E está nela até hoje.

SAÚDE
Dentro dessa questão de saúde é que veio o meu desejo de entrar para vida pública para eu poder ter condições de ajudar mais. Tem pessoas que, infelizmente, dentro da minha profissão, a saúde não está de brincadeira. Então isso cresceu a vontade de ir mais além. Então, a minha decisão foi essa para eu poder ingressar na vida pública.

Eu escolhi o PDT porque é um partido que me deu respaldo, até mesmo pelas histórias de Leonel Brizola. Eu peguei muito isso para mim. E eu decidi me filiar e me candidatar. Dentro desse contexto da minha candidatura eu tenho em mim que o meu mandato será no coletivo e no popular. Por que? Porque não adianta você estar numa redoma, “eu sou deputado estadual”, e daí? Tem que pegar o povo. O povo tem que estar comigo e eu e eu estar com o povo.

Eu tenho que saber qual é a dificuldade dessas pessoas, não tem que ter porta-voz. É o meu trabalho hoje. Então quero transformar o que eu faço dentro desses 9 anos (de experiência na área de saúde) com o povo e quero fazer disso um boom maior para poder ajudar mais. Só isso que eu digo: tem que ser no coletivo e no popular.

Dentro da saúde eu vejo inúmeras situações degradantes que fazem com que a nossa população fique refém dessa máquina que impõe põe coisas absurdas no contexto de saúde. Filas e mais filas para você fazer um exame, nessa filha você fica meses. Tem pacientes que ficam anos esperando por uma única consulta. Quando eu comecei a trabalhar na saúde, toda a parte de ajuda que a unidade fosse te oferecer seria feita através da triagem.

Hoje não é assim. Hoje é como se fosse uma máquina, que se chama *SISREG, que cuida do paciente. Mas ela (amaquina) não está vendo a necessidade do paciente. Eu sou a favor do ser humano cuidar do ser humano, não a máquina cuidar do ser humano. Dentro disso tem vários outros contextos. Por exemplo: se o paciente mora em Madureira, o SISREG capta essa pessoa que está na vez na fila e joga ele (para ser atendido) em Magé. Não é humanizado. Nós temos que aprimorar esse sistema do SISREG.

MANDATO COMPARTILHADO
tem que ser um mandato compartilhado onde a gente tem que estar inserindo arte, transporte, empreendedorismo, religião, educação. Dentro da religião a gente tem que estar combatendo essa questão da intolerância religiosa, que é um absurdo. Na educação a gente tem que ampliar as leis que são que a 10.639 (lei que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira) é 11.645 (história e cultura afro-brasileira e indígena).

ARTE E ESPORTE
Dentro da cultura urbana a gente tem que ter a arte e esporte que são os contextos que surgem nas periferias onde a maioria é negra e são menos privilegiados com essas atividades por falta de espaço físico, falta de centros culturais. As tradições de matriz africanas tem os blocos afros e afoxés, onde está relacionada à cultura religiosa. E dentro disso tem em seus calendários, os blocos têm seu calendários a serem definidos. Intencionalmente esse mandato compartilhado tem a responsabilidade de efetivar todas as suas atividades: na saúde, no esporte, na cultura, dentro do segmento de matrizes africanas, em todos esses contextos. 12.789, Luciana Xavier, tem que ser! A mulher não edifica ser lar? Então está na hora da gente mostrar o poder de arrumar a casa. O Rio de Janeiro é a nossa casa, o nosso estado é a nossa casa e a gente tem que mudar esse quadro.

* SISREG, Sistema on-line desenvolvido pelo DATASUS. O sistema funciona com navegadores (Internet Explorer, Mozila Firefox, etc.) instalados em computadores conectados à internet. Esse software é disponibilizado pelo Ministério da Saúde para o gerenciamento de todo Complexo Regulatório, indo da rede básica à internação hospitalar, visando à humanização dos serviços, maior controle do fluxo e a otimização na utilização dos recursos, além de integrar a regulação com as áreas de avaliação, controle e auditoria.

Mãe Flávia Pinto: na luta pelos direitos dos negros e do público LGBTQI+

CANDIDATA
Mãe Flávia Pinto

PARTIDO
PDT – 1238

CARGO DISPUTADO
Deputada Federal

ORGANIZAÇÃO
Julio Menezes Silva

FALA, MÃE FLÁVIA!
Eu sou uma mulher favelada, nascida e criada na Vila Vintém (RJ). Estudei como aluna bolsista do programa de ações afirmativas da PUC-Rio, sou socióloga, atualmente mestranda em sociologia política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ, sou gestora pública pela ENAP – Escola Nacional de Administração Pública. Fui coordenadora de diversidade religiosa durante da Prefeitura do Rio de Janeiro, realizei a primeira pesquisa de mapeamento dos terreiros pela PUC-Rio e  Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR. Criamos o primeiro Centro da Promoção da Liberdade Religiosa da América Latina – CEPLIR, que atende a vítimas de intolerância religiosa, como a menina Kailane, por exemplo. Criamos o primeiro mutirão de legalização gratuita dos terreiros que é um instrumento de fortalecer a organização jurídica dos terreiros.

Isso tudo me levou a uma caminhada de 20 anos nessa trajetória. Ganhei prêmio nacional de Direitos Humanos entregue pela presidenta da república (Dilma Rousseff). Também realizo assistência umbandista no sistema prisional. Segundo informações do Departamento Nacional Penitenciário – DEPEN, sou a única representante das religiões afro-brasileiras. Sou babá de umbanda há 20 anos da casa de umbanda que eu fundei, a Casa do Perdão.

Como uma pessoa vinda de comunidade eu fui marcada pela violência, pelo racismo, pelo sexismo. A minha mãe foi assassinada, fiquei três dias com ela morta dentro de casa. Eu tinha 10 anos de idade junto com meu irmão que tinha 3 na época. (O crime foi cometido) pelo meu padrasto. Um crime que está impune até hoje. Todo mundo sabe que foi ele que matou até porque ele deixou uma carta comunicando aquilo que ele chamou de crime passional, matou por amor, que hoje graças a luta feminista a gente tipifica como feminicídio.

Estar candidata hoje à convite do nosso governador Pedro Fernandes, que foi meu secretário secretário quando eu estive na Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado. Depois, eu fui para o município e quando ele se tornou secretário do Município ele me convidou. Desenvolvemos várias ações de direitos humanos, de combate ao racismo, de liberdade religiosa dentro dos equipamentos (públicos) como o CRAS – Centro de Referência de Assistência Social, como Redes de Abrigos de Assistência, onde estão a maioria da população pobre, preta e indígena também.

Então eu aceitei esse desafio porque o Congresso Federal tem 513 parlamentares, somente 51 mulheres, somente seis mulheres negras e apenas 10 pessoas negras no total. É uma necessidade muito grande de termos maior representatividade desses segmentos lá. Se eleita vou ser a primeira mãe santo deputada dentro do Congresso Federal, e isso quer dizer muita coisa.

A gente tem o compromisso de defender o estado laico, de provocar através da fiscalização e do compromisso orçamentária, política que enfrentem à violência de gênero através de qualificação, de discussão desse tema, sobretudo na escola, com jovens e adolescentes. Prevenção de gravidez prematura para meninos e meninas, porque não são só as meninas as responsáveis pela gravidez, os meninos também são. A gente tem também a dificuldade de um enfrentamento, de reduzir e tirar o Brasil do (posto) de quinto maior país com número de estupros.

Nós temos muitos casos de pedofilia. No caso do Rio de Janeiro, segundo o Dossiê Mulher e o Atlas da Violência, nós tivermos 4173 estupros, sendo um terço meninas de 13 anos. Então, isso é pedofolia e 60% a 70% desses casos são de pessoas negras. Então há um recorte de gênero, há um recorte racial. São as meninas negras que mais sofrem com o número de estupros e a maioria dos casos ocorreram dentro de casa ou nas ruas com menos iluminação. O que isso quer dizer?

Isso quer dizer que se você tiver uma política com presença de um número maior de pessoas negras e mulheres ou religiosas afro-brasileiras, você não vai ter um tratamento desse tipo de caso. Tanto que muitas vezes os casos de pedofilia violência doméstica são tratados dentro de terreiros, onde as mulheres têm coragem de desabafar e denunciar os casos de estupro. Por que? Muitas vezes em outros segmentos religiosos elas são culpabilizadas por aqueles estupros. Os terreiros têm o potencial de promotor de cidadania muito forte. Nós somos quilombos urbanos. A pesquisa de mapeamento provou que nós estamos nas áreas mais pobres, então a população do nosso entorno são pessoas pobres, igualmente pobres.

EDUCAÇÃO
A gente tem que ativar esse potencial de promoção de Cultura. Enquanto outras religiões vão incentivar essa mulher permanecer casada no casamento onde a vida dela corre risco, e são a maioria de mulheres negras os vários casos de feminicídio. A gente também tem a proposta de aumentar o horário de creche para horário noturno porque a mulher trabalhadora não chega às cinco horas da tarde na creche para pegar a criança. Ela depende de um deslocamento numa cidade metropolitana como Rio de Janeiro que ela leva, em média, duas horas. Então quem perde o emprego por causa de criança e a mulher não é o homem. Para aprovar uma lei dessas, a gente precisa de mais mulheres no Congresso Federal, para a creche pública a creche pública funcionar até nove horas da noite.

Também aumentar o número de creches que aceitam crianças com menos de um ano de idade e também a licença-parental, onde o homem e a mulher são igualmente responsáveis pela criança. Por que normalmente a mulher perde o emprego quando ela volta da licença-maternidade. Por quê? Ela não tinha uma creche ou local adequado para deixar aquela criança. Então ela volta tensa, cai a produtividade dela e ela é demitida logo em seguida. Então, para gerar renda, você precisa aprovar leis que dêem conta dessa criança na escola, e por isso também a gente tem total apoio a política de incentivo de desenvolvimento de crianças em escolas integrais, em horário integral. Eu estudei no Brizolão, que Brizola trouxe como proposta de enfrentamento à violência. Brizola dizia que se não construíssimos escolas teríamos de construir presídios. Uma pessoa presa custa 16 vezes mais do que uma criança na escola. Então é o horário integral. Eu sou aluna de CIEP. O caso de violência da minha mãe, de feminicídio, eu só não assisti o crime porque eu estava no CIEP. Eu fiquei com ela três dias morta dentro de casa. Eu ia para escola e voltava com a minha mãe morta sem ter consciência de que ela estava morta. Então, só para você ter uma ideia de como também a criança na escola evita o ambiente hostil que uma comunidade oferece, né?

POLÍTICA RACIAL
Além disso a gente tem um compromisso com a política racial muito forte. Eu sou uma ativista do movimento negro há muito tempo. O PDT foi o meu primeiro partido. Eu sai do PDT, fui para o PT e voltei para PDT. Eu não estaria no partido que não tivesse compromisso sólido, histórico com a questão racial. Isso para mim é muito confortável, é muito revigorante estar num partido de Abdias Nascimento, de Lélia Gonzalez. Estar num partido que tem sim uma coordenação negra municipal, estadual. Isso para mim é muito importante.

Dentre as propostas para enfrentamento do racismo, a gente tem primeiro que colocar os nossos jovens na escola, tirá-los dessa oferta de, mão de obra gratuita do tráfico de drogas, isso compromete demais a utilização dessa mão de obra. Fomentar a cultua popular como rap ou hip-hop, o samba, o jongo, a capoeira, o maracatu, A capoeira tem que ser um esporte brasileiro. Não há porque não ser porque estaria gerando renda através de federações e competitividade através de olimpíadas. Isso é muito importante, incluir os jovens. A gente também quer fomentar o intercâmbio cultural com os países da diáspora. Os universitários africanos não nos conhecem e os nossos universitários cotistas não conhecem a mãe África e os países e os países da diáspora, o que vai potencializar bastante a inserção desses jovens no mercado de trabalho porque ele vai conhecer a filosofia africana, a ciência africana e toda uma forma que não é uma forma euro cristã nem eurocentrada de conhecimento. Ele vai beber na fonte de Cheik Anta Diop, vai beber na fonte dos cientistas e dos filósofos africanos, e a gente vai poder uma outra conceituação. Inclusive de feminismo, que não é bem o feminismo negro mas é o mulherismo africano que não dá conta só do empoderamento da mulher, mas que traz o homem preto também como representante de um povo. Então o homem preto que morre, que tá sendo assassinado, ou ele é meu filho, ou ele é meu pai, ou ele é meu avô, ou ele é meu irmão, ou ele é uma pessoa minha. Então o problema do homem preta é um problema da mulher preta e a gente tem que trazer isso para muito perto da gente também.

LGBTQI+
Compromisso com a política LGBTQI+. As pessoas trans e as pessoas homoafetivas negras são as que mais sofrem também daquilo que a gente quer chamar de homofilofóbico, que é a tipificação do crime contra pessoas LGBTQI+. Isso está travado pela bancada evangélica. Ela não quer reconhecer o crime contra pessoas, o assassinato de pessoas LGBTQI+. Então esse compromisso como mão de santo eu tenho que ter porque a minha religião é a religião que acolhe as pessoas. É a religião que tá dando primeiro pontapé para acolher as pessoas trans, porque normalmente essas pessoas estupradas, são expulsas de casa ou são criadas em ambientes hostis e de violência familiar. Então esse é o meu compromisso também. A gente tem que ter um número maior de pessoas pretas, de mulheres nesse congresso porquê esse congresso não nos dá conta de nos representar, 90% de homens brancos da elite, empresários. Nós temos um número maior de mulheres em países como Afeganistão, como Belize, como o Irã. No Brasil nós somos menos do que isso nós, somos 10% mulheres só. E seis mulheres negras em 513 deputados. Em 513 cadeiras só tem seis mulheres pretas sentando. Então não vai dar conta de você enfrentar a violência se você não tiver vozes maiores para representar esse grupo social.

Tainá de Paula: uma candidata para a população negra, pobre e periférica

CANDIDATA
Tainá de Paula

PARTIDO
PC do B – 65.013

CARGO DISPUTADO
Deputada Estadual

ORGANIZAÇÃO
Julio Menezes Silva

FALA, TAINÁ!
Eu já tenho a militância de anos no direito à cidade, no direito à moradia. Sou uma mulher das lutas urbanas. Nesse lugar de arquiteta e urbanista e percebendo um  pouco com o estado que o Rio de Janeiro está, não só falando de golpe, não só da conjuntura nacional mas falando da crise econômica que vivemos, de um acirramento da luta de classes onde há um milhão e duzentos mil desempregados no Rio de Janeiro. Só nesse primeiro período de 2018 tivemos 55 mil postos de trabalho perdidos, de
acordo com Ministério do Trabalho. A gente vive uma crise em várias frentes no Estado do Rio.

Pensando nesse guarda-chuva maior de propostas, meu conteúdo programático parte desse debate do direito à cidade. Precisamos encaixar dois grupos fundamentais que são a maioria hoje da população no Rio: mulheres, a gente está falando de 52% da população do Estado composta por mulheres e 53% de população negra.

Se a gente cruzar com os dados de miséria e com todos os indicadores sociais, essas duas massas de população (mulheres e negros) são a maioria nos índices de população de rua, são a maioria no índice de desemprego, são a maioria nas filas de espera do SUS. Se atrelarmos ao fator violência urbana, se a gente parar pra pensar o que é esse genocídio histórico da população negra no estado do Rio de Janeiro, o que é e o que foram a agenda de retirada das políticas públicas para mitigação da pobreza e da desigualdade
social, a gente começa a entender que existe um processo muito claro e marcadamente racializado nessa desigualdade.

Falar hoje de desigualdade social é falar de desigualdade racial. No Rio de Janeiro isso fica muito claro. Recentemente, a gente tem pautado muito o tema, não a partir da morte de Marielle Franco (e Anderson Gomes), mas acho que foi o marcador para ampliar o debate na sociedade civil, que a gente chegou no caso extremo de retirada de direitos e de criminalização do nosso território, das nossas cidades, né?

Chegamos à conclusão de que pode acontecer o genocídio em qualquer lugar e com qualquer figura
que, para além de ser uma mulher negra e periférica, foi uma mulher, parlamentar em exercício, que foi executada. Então esse marcador amplia o espectro de  possibilidade concreta de acontecer um crime para qualquer indivíduo, para qualquer cidadão do Estado do Rio.

Hoje existe pouquíssimo ou quase nenhuma inserção do cidadão comum na política de segurança. Qualquer candidato ao parlamento que se coloca em 2018 precisa ter a pauta da segurança pública muito bem definida e muito articulada com que sequer para uma sociedade melhor. É inadmissível a gente ter territórios para-militarizadas. E aí, falando de Milícia, de grupo de extermínio, enfim, falando de grupos que dominam determinados territórios. Estou falando de Rio de Janeiro, baixada fluminense, mas
também estou falando da região serrana, da região da baixada litorânea pegando Cabo Frio, São Pedro da Aldeia.

O último índice composto pela Segurança Pública percebemos que os municípios que aumentaram assustadoramente o índice de violência não estão no Rio de Janeiro. Queimados é o município mais violento do Brasil. Cabo Frio tem um dos piores índices de segurança pública do país. A gente precisa refletir sobre esses dados e pensar que a ausência de política pública também faz esses índices de segurança ficarem tão claros aos nossos olhos.

Voltando um pouco para o debate da cidade, que é a minha praia, acho que a gente debate mal e vem debatendo muito mal a nossa moradia (e de) como pobres e a população negra, periférica mora. E como essa cidade acaba adoecendo parte da população. O debate da saúde pública está muito desarticulado da pauta urbana, o que é um grande equívoco. Se a gente parar para pensar que tem a Rocinha e outras favelas do Rio de Janeiro com altos índices de tuberculose, anemia falciforme, de sarampo e de outras
doenças que foram totalmente erradicadas e que voltam no repertório das unidades básicas de saúde, e isso por uma questão de habitabilidade, de condição urbana, de urbanidade, a gente precisa voltar ao debate do saneamento básico mesmo em um momento onde se está discutindo a privatização do sistema de saneamento.  Precisamos saber que a gente não conseguiu dar conta do acesso universal ao saneamento básico de qualidade.

Estamos à reboque desse bojo de pacotes privatistas que tiram direitos mas, na verdade, esses direitos nem foram alcançados na sua totalidade. Mesmo no estado do Rio tendo recebido recursos vultosos no que se refere ao processo de urbanização, e falando concretamente: por exemplo, o Estado do Rio de Janeiro conseguiu construir 40.000 unidades habitacionais. Não é pouca coisa. Mas ao mesmo tempo a gente não conseguiu qualificar as nossas cidades. A gente tem ainda favela de palafita, favelas no mangue, risco de contaminação de água, (níveis) de potabilidade de água dos mais baixos das regiões metropolitanas no Brasil.

Temos índice de desenvolvimento humano muito baixo. São Gonçalo, por exemplo, a grande maioria da população não tem acesso à água potável. Se a gente pega municípios que atingiram a cota do (programa) Minha Casa Minha Vida, falando de um programa nacional de habitação, mas que ao mesmo tempo não conseguiu atingir a cota de acesso à água potável na sua totalidade. Então existe ainda um baixíssimo controle do planejamento urbano no estado do Rio de Janeiro e é uma das prerrogativas do legislativo fazer esse acompanhamento e essa fiscalização. Quem fiscaliza as ações do governo Estado? Quem deveria fiscalizar? Esse parlamentar Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio
de Janeiro) e eu não vejo esse movimento.

Outra grande preocupação minha que está no bojo da minha pesquisa, do meu futuro trabalho na Alerj é a questão da mobilidade. E principalmente a mobilidade das mulheres negras, das mulheres pobres e da população periférica. Hoje temos dois milhões de pessoas pobres que estão na faixa de 0 a 5 salários mínimos que se locomovem de cidade-dormitório e vão para os grandes centros urbanos no Rio de Janeiro. É muito comum ter uma pessoa que ganha três salários mínimos e se locomover entre Xerém e Rio de Janeiro e demorar quase quatro horas por dia nesse tempo. Quatro horas por dia é um tempo que eu não cozinho, que eu não cuido do meu filho, que eu não trabalho para mim em numa perspectiva de incremento de renda. É um tempo de ócio, é um tempo que é retirada a vida das pessoas. Para além de ser uma morte de longo prazo porque esse transporte tem uma baixa qualidade e não te conforta, é um transporte que é caro.

Quem controla o valor dessa tarifa? Porque essa tarifa não é integrada e não favorece a quem mais precisa desse transporte público? Temos um alto índice desemprego e o nosso transporte público não reflete esse desemprego. Então, concretamente, não tem dinheiro para usar esse transporte. Não tem nenhuma política que me facilite o acesso a esse transporte público de qualidade.

Emprego é outra questão do que para mim é fundamental e está muito latente principalmente na pauta da negritude. Trabalho, primeiro emprego, formação de um mercado que gere esse trabalho. Estou falando de todas as áreas desde o primeiro emprego de baixa qualificação até os empregos de alta qualificação. Ao mesmo tempo que a gente conseguiu inserir o negro na universidade a duras penas, porque a universidade pública não tem estrutura e tem evasão e muita dificuldade de manter com qualidade esse estudante na universidade, existe uma dificuldade concreta da gente colocar um jovem negro que passou pela universidade nesse primeiro emprego. Qual é o número de jovens negros saídos da universidade que conseguem acessar o mercado de trabalho, em um estado que não tem postos de trabalho disponível para a população de modo geral?

Nesse sentido, a gente precisa garantir na Alerj quadros qualificados que abram diálogo e que estejam preparados tanto para fazer a ponto com a sociedade civil e dos movimentos organizados quanto para dar conta dos desafios que é fiscalizar o executivo e colocar pautas qualificas e que interessam, de fato, a todo o Rio de Janeiro. É  importante também firmar que a gente precisa significativamente inserir o povo negro alinhada com as pautas negra. E que definam como prioridade no seu conteúdo programático: para a população negra, para a população negra e pobre e periférica, que são agendas fundamentais de emancipação e construção de uma igualdade racial de longo prazo, que é o interesse de todo mundo.