Ipeafro digitaliza acervo histórico de Abdias Nascimento para preservação da memória negra com apoio internacional

Esta publicação foi realizada pelo Ipeafro, com apoio financeiro dos países membros do Programa Iberarquivos e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID)

Rio de Janeiro – O Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) deu um importante passo na preservação da memória, legado e patrimônio afro-brasileiro ao digitalizar um extenso acervo histórico. Foram processadas 12 mil imagens, extraídas de 15 microfilmes, além de centenas de minutos de conteúdo audiovisual, provenientes de 51 fitas mini-DV. Parte desse material é inédito e documenta a atuação de pessoas e organizações da sociedade brasileira nas últimas décadas, com ênfase na luta antirracista e na valorização da cultura negra.

A iniciativa contou com apoio financeiro dos países membros do Programa Iberarquivos e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), por meio da Convocatória 2024. “A contemplação do nosso projeto no edital do Iberarquivos reforça a missão do Instituto de preservar a memória negra e evidencia o reconhecimento, por entidades arquivísticas nacionais e internacionais, do Ipeafro como guardião de um acervo de relevância para o Brasil e para os países integrantes do programa”, afirma Clícea Maria Miranda, diretora de Gestão do Acervo do Ipeafro.

A difusão do acervo digitalizado começará em janeiro de 2026, no site e nas redes sociais do Ipeafro. Uma prévia desse conteúdo já está acessível: as entrevistas de Abdias Nascimento no YouTube. O projeto também gerou um resultado imediato: em breve, o Ipeafro passará a integrar a Rede de Memória Virtual Brasileira da Biblioteca Nacional, um portal agregador de conteúdos digitais pertencentes a instituições de guarda de acervos distribuídas pelo país. 

Abaixo é possível acessar uma parte dos documentos disponibilizados ao público, bem como acessar vídeos que foram digitalizados de mini-dv – uma fita cassete digital compacta usada em filmadoras para vídeo digital.

GALERIA DIGITAL: 12 IMAGENS DA “ATUAÇÃO POLÍTICA” COM CONTEXTO HISTÓRICO RESUMIDO

Seção Atuação Política

Em 1991, ao assumir a vaga de Darcy Ribeiro no Senado Federal, Abdias Nascimento despertou amplo interesse da imprensa nacional, que dedicou cobertura significativa ao fato. Na ocasião, foi considerado o primeiro senador negro do país. Contudo, em seu discurso de posse, Nascimento fez questão lembrar a memória histórica, listando outros parlamentares negros que já haviam integrado o Senado antes dele. O que verdadeiramente o distinguiu foi ter colocado a questão racial no centro de sua atuação parlamentar, transformando-a em eixo fundamental de suas proposições e debates. 

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Muito antes de a política de cotas se tornar Lei, no início do século 21, Abdias Nascimento e a coletividade negra já reivindicavam ações afirmativas voltadas à reparação da escravidão no Brasil — um sistema que historicamente empurrou pessoas negras para fora dos espaços de decisão que moldaram o país. Retomando a sua proposta de políticas afirmativas antirracistas, apresentada à Câmara dos Deputados em 1983, o senador Abdias Nascimento propôs cotas raciais no mercado de trabalho e no serviço público com recorte de gênero. Tendo como referência o dado oficial daquele momento de que 42,4% da população brasileira seria de cor preta ou parda, Abdias Nascimento definiu a cota de 20% para homens negros e mais 20% para mulheres negras. O projeto de lei incluiu programas de aprendizagem, treinamento e aperfeiçoamento técnico capazes de garantir a formação de profissionais em todas as áreas.

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Entre 3 e 23 de junho de 1998, o Senador Abdias Nascimento exibiu sua produção intelectual no Salão Negro do Senado Federal, com 53 pinturas e 40 textos de sua autoria. Em 2 de julho, um dia antes da abertura, a Agência Senado divulgou uma notícia sobre a “Mostra Cultural Afro-Brasileira”, reunindo obras que retratam orixás, entidades mitológicas egípcias e imagens do vodu haitiano. O professor Muniz Sodré, já à época ligado à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), comentou sobre a pintura de Abdias: “Seus quadros podem ser entendidos como movimento de obrigação ritualística, mas também como signos artísticos de uma busca ontológica a que o impele sua condição de negro consciente da diáspora escrava”.

No dia da abertura, o colunista Ricardo Boechat publicou outra nota, veiculada em vários jornais do país, sob o título “Efeito Viagra”. Ali, anunciava “polêmica à vista”, dando ênfase ao falo ereto de uma das pinturas apresentadas na mostra, a obra “Xangô Crucificado ou O Martírio de Malcolm”, da série que remete à tradição dos orixás, que mostra um homem negro pendurado numa cruz e remete ao tema do Cristo Negro – que Abdias Nascimento, no contexto de realizações do Teatro Experimental do Negro, explorava desde os anos 1950. Na vernissage, contam as reportagens, Abdias tentava explicar o contexto — o falo associado ao poder e à força, às tradições. Mas a nota de Boechat já havia direcionado a narrativa, pautando a imprensa presente. Nos dias seguintes, matérias foram publicadas em torno da polêmica, sendo uma das mais emblemáticas uma nota publicada na Revista Veja em 10 de junho de 1998, sob o título: “Xangô Assusta o Congresso”.

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GALERIA DE VÍDEOS:  TRECHOS DO ACERVO AUDIOVISUAL IPEAFRO DISPONIBILIZADOS NO YOUTUBE, COM SEUS CONTEXTOS HISTÓRICO RESUMIDOS NA DESCRIÇÃO DA LEGENDA

  1. Publicado no Youtube em 08/12/2025.
    Link: https://www.youtube.com/watch?v=mSQLONoey4Y
    Título: A 1ª Secretaria de Promoção da População Afro-Brasileira: a gestão de Abdias Nascimento
    Legenda: Em abril de 1991, Abdias Nascimento fez história ao assumir a primeira Secretaria de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras no Brasil, no Rio de Janeiro. Sua ação foi imediata: criou um serviço pioneiro para registrar denúncias e acolher vítimas de discriminação racial. Em pouco mais de um ano, 57 casos foram atendidos pela assessoria jurídica. Este foi um marco na luta institucional contra o racismo no Brasil. O vídeo traz uma das inúmeras entrevistas concedidas pelo secretário Abdias Nascimento à imprensa, comentando questões relacionadas a sua gestão à frente da secretaria.
  2. Publicado no youtube em 10/12/2025.
    Link: https://www.youtube.com/watch?v=XIWbo4qHSV8  
    Título: Mãe Beata discursa durante  7° Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros (Brasa)
    Legenda: Fala de abertura de Mãe Beata Mae Beata de Yemanjá durante a mesa As obras e a influência de Abdias Nascimento, realizada durante o 7° Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros (Brasa), realizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC – Rio), entre os dias 9 – 12 de junho de 2004. Organizada por J. Michael Turner, Hunter College, a mesa que celebrou a vida e a obra de Abdias Nascimento – naquele momento com 90 anos – foi realizada em 10 de junho, com participação de Ubiratan Castro de Araújo, Kabengele Munanga, Sueli Carneiro e João Luis Duboc Pinaud. Ainda como parte do Congresso, o Ipeafro realizou a exposição Abdias 90 Anos, uma Mini-Mostra, no Solar Grandjean de Montigny, também na PUC-Rio – cuja a vernissage pode ser vista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=0EdlolXKesM.  
  3. Publicado no youtube em 08/12/2025.
    Link: https://www.youtube.com/watch?v=RuRo6VsPHCw 
    Título: Museógrafo Afonso Drummond comenta a exposição “Abdias Nascimento 90 anos: Memória Viva” (2004)
    Legenda: Em 2004, o Ipeafro, com apoio do Arquivo Nacional e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e patrocínio da Petrobras, celebrou os 90 anos de vida de Abdias Nascimento com a realização da exposição “Abdias Nascimento 90 anos: Memória Viva”, na sede do Arquivo Nacional no Rio. Com curadoria de Elisa Larkin Nascimento e projeto museográfico de Afonso Drumond, a mostra ocupou 700 m² com mais de 420 peças do acervo Ipeafro, incluindo obras do artista, dos artistas da coleção Museu de Arte Negra e documentos do Teatro Experimental do Negro. O sucesso foi tamanho que a temporada foi prorrogada duas vezes, com intensa visitação escolar, antes de seguir para Brasília e Salvador. Este vídeo traz comentários de Afonso Drummond no contexto expositivo. 
  4. Publicado no Youtube em 10/12/2025. Link: https://www.youtube.com/watch?v=Jf3xJBWBX88
    Título: Abdias Nascimento na Serra da Barriga: a voz do Memorial Zumbi pelo tombamento de Palmares (1983)
    Legenda:
    Trecho de documentário que registra uma das primeiras peregrinações organizadas pelo Memorial Zumbi à Serra da Barriga, em 1983. O pronunciamento de Abdias Nascimento fez parte de um dos atos públicos que o Memorial Zumbi promoveu em prol do tombamento das terras da República de Palmares, em Alagoas, conjunto de quilombos e centro de resistência à escravatura durante o período colonial no Brasil. O Memorial Zumbi, fundado em 1980, reunia intelectuais, organizações comunitárias e entidades do movimento negro de todo o Brasil, além de universidades e outros órgãos públicos tais como o Serviço Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (atual IPHAN) e a Universidade Federal de Alagoas. A atuação sócio-política dessa organização e dos atores políticos que dela participavam desembocou na criação da Fundação Cultural Palmares, que em 1989 realizou a desapropriação das terras da Serra da Barriga. As peregrinações do Memorial Zumbi ajudaram a consolidar a proposta de comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra no dia 20 de novembro.
  5. Publicado no Youtube em 08/12/2025. Link: https://www.youtube.com/watch?v=0EdlolXKesM
    Título:
    Abertura da Mini-Mostra “Abdias 90 anos | Imagens raras da vernissage (PUC-Rio, 2004)
    Legenda: Este vídeo documenta a vernissage (abertura solene) da exposição “Abdias 90 Anos, uma Mini-Mostra”, um evento especial realizado durante o 7° Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros (Brasa). O congresso ocorreu na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), entre os dias 9 e 12 de junho de 2004. A recepção aconteceu no histórico Solar Grandjean de Montigny, na PUC-Rio, e celebrou os 90 anos do professor, artista, escritor, político e ativista pan-africanista Abdias Nascimento. As imagens capturam a atmosfera íntima e significativa dos bastidores do evento, registrando a presença e o convívio de personalidades fundamentais na luta pela igualdade racial, nas artes, na academia e no movimento social brasileiro. Além do próprio homenageado, Abdias Nascimento, é possível identificar no vídeo a presença de figuras marcantes como: Léa Garcia, atriz; Carlos Alberto Medeiros, jornalista; Ele Semog, poeta, escritor; Humberto Adami, advogado; Afonso Drummond, museógrafo da mostra; Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias e curadora da mostra; Lia Vieira, escritora e economista; Julio Cézar Tavares, antropólogo e professor; entre outras. 
  6. Publicado no youtube em 08/12/2025.
    Link: https://www.youtube.com/watch?v=x9xxhjBQHhk
    Título:
    Abdias Nascimento fala sobre a sua experiência lecionando nos Estados Unidos (1970)
    Legenda: Esta entrevista histórica, filmada em 1970, captura Abdias Nascimento em um momento-chave de sua projeção intelectual internacional. Realizada pela agência cultural dos Estados Unidos na Universidade Wesleyan, em Connecticut, o registro documenta sua atuação como Professor Visitante e Fellow do seminário “A Humanidade em Revolta”. Na ocasião, ele dialogou e debateu com grandes intelectuais da época — como o arquiteto Buckminster Fuller, o compositor John Cage e o filósofo Herbert Marcuse — inserindo a luta e o pensamento negro brasileiro no centro do debate acadêmico ocidental de vanguarda. As imagens e a entrevista constituem um testemunho audiovisual raro de sua inserção em um fórum tão relevante. Um detalhe singular: o casaco de tapeçaria usado por Abdias Nascimento durante a gravação foi criado pela artista Iara Rosa em 1968, quando ele se preparava para viajar aos Estados Unidos para um intercâmbio cultural, que se estendeu em um período de autoexílio devido à intensificação da ditadura militar brasileira, especialmente após a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em dezembro de 1968. Até hoje, essa peça integra a coleção museológica do acervo do Abdias Nascimento | Ipeafro.
  7. Publicado no Youtube em 15/12/2025.
    Link: https://www.youtube.com/watch?v=64OSRu8FWG4
    Título: Palmares como modelo: Abdias Nascimento e a lição para o futuro do Brasil (anos 1980)
    Legenda: Abdias Nascimento defende que o futuro do Brasil pode aprender com o passado. Neste trecho, ele analisa a formação histórica dos quilombos e destaca o Quilombo dos Palmares como um modelo inspirador de organização social e econômica. Para Abdias, Palmares foi mais do que um refúgio: foi uma sociedade que propunha uma divisão mais igualitária das riquezas produzidas coletivamente — um contraponto direto ao sistema escravocrata. As entrevistas foram gravadas nos anos 1980, um período especial na retomada da memória negra, quando Abdias e diversas pessoas e movimentos faziam peregrinações à Serra da Barriga, em Alagoas, local que abrigou o quilombo. Sua fala é um chamado à reflexão: “O Brasil, se realmente quer implantar um regime democrático, igualitário e fraterno, tem que primeiro aprender com a lição de Palmares”.
  8. Publicado no Youtube em 18/12/2025.
    Link: 
    https://www.youtube.com/watch?v=JUMoIkCinL0 
    Título: Jurema Werneck discursa na premiação de Abdias Nascimento pela ONU | SESC Flamengo (2003)
    Legenda: Discurso de Jurema Werneck, no dia 26 de novembro de 2003, no SESC Flamengo, no Rio de Janeiro, em cerimônia em que o ativista, escritor e artista Abdias Nascimento foi agraciado com o Prêmio Comemorativo das Organizações das Nações Unidas (ONU) por Serviços Relevantes em Direitos Humanos. Uma homenagem da ONU a uma vida inteira dedicada à luta contra o racismo e em defesa da população negra no Brasil e no mundo.

Esta publicação foi realizada pelo Ipeafro, com apoio financeiro dos países membros do Programa Iberarquivos e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).

Sobre o Ipeafro
Fundado por Abdias Nascimento e Elisa Larkin Nascimento em 1981, o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) é uma associação sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro. Sua missão é preservar, gerir, articular e difundir o acervo de Abdias Nascimento e das organizações que ele criou – Teatro Experimental do Negro e o Museu de Arte Negra – para a permanência de memória e resistência. O acervo contém uma coleção museológica da própria produção artística de Nascimento e de obras doadas ao Museu de Arte Negra, que nasceu da atuação do Teatro Experimental do Negro, fundado e dirigido por Nascimento a partir de 1944. O acervo documental do Ipeafro reúne a iconografia, os registros audiovisuais e os documentos de texto (recortes de jornais e revistas, programas teatrais, manuscritos, correspondências, registros de sua atuação parlamentar, etc) produzidos e recebidos por Abdias Nascimento e pelas organizações que ele fundou.

 

PRORROGADA (ATÉ 31/03/26) – Exposição “Memória Negra em Cartaz(es)” revela a luta por direitos fundamentais através de cartazes históricos criados pelos movimentos negros

Concebida pelo Ipeafro, a mostra celebra um acordo inédito com o MAST que viabilizou a digitalização de 250 documentos históricos

Crédito das imagens: Zezzynho Andrade

A partir de discussões sobre legado, ancestralidade e futuro, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) firmam parceria inédita voltada à preservação e difusão da memória afro-brasileira. A primeira etapa do Acordo de Cooperação Técnica incluiu a digitalização de 250 cartazes históricos. Parte destes itens de acervo integra a exposição “Memória Negra em Cartaz(es)”, que reflete sobre as proposições de pessoas, organizações e coletivos da sociedade civil e do movimento negro, das quais Abdias Nascimento, cofundador do Ipeafro, tornou-se um de seus principais porta-vozes.

Dentre esses momentos históricos, destacam-se os cartazes de divulgação do curso de extensão “Sankofa: Conscientização da Cultura Afro-Brasileira”, realizado entre 1985 e 1995 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Com a colaboração de autores como Nei Lopes, Lélia Gonzalez, Muniz Sodré, Helena Theodoro, Abdias Nascimento, Elisa Larkin Nascimento, entre outros, a iniciativa do Ipeafro pavimentou debates acadêmicos fundamentais que contribuíram para a UERJ ser uma das pioneiras na adoção das cotas raciais como política afirmativa.

“A parceria com o MAST, uma instituição pública da área da ciência e tecnologia, revela o reconhecimento da atuação dos povos negros na construção da cultura, da história e das ciências no Brasil e no mundo. A iniciativa demonstra ainda o compromisso com a defesa da memória negra através de sua preservação e com a produção de uma narrativa de luta por direitos e cidadania”, explica Clícea Maria Miranda, diretora de Preservação e Gestão do Acervo Ipeafro

Um dos espaços da exposição. Crédito: Zezzynho Andrade

Outro marco histórico foram as primeiras peregrinações à Serra da Barriga, local histórico da luta contra a escravização dos quilombos que compuseram a República de Palmares, em União dos Palmares (AL). A arte criada para esses cartazes pelo artista visual Jota Cunha em 1981 e 1983, rememora a formação do Memorial Zumbi, movimento crucial que articulou lideranças negras nacionais, levou centenas de pessoas à Serra e abriu caminho para a consolidação do 20 de Novembro como data simbólica pela conscientização da luta pela melhoria de vida das populações afro-brasileiras. O Memorial Zumbi e suas peregrinações foram essenciais para a criação da Fundação Cultural Palmares, elevando a causa quilombola, por exemplo, ao patamar de política de Estado.

 

“A parceria é importante por focar na preservação do acervo de Abdias Nascimento, um símbolo das lutas pela igualdade, mas também por colocar o MAST como referência na captação e tratamento de arquivos pessoais de cientistas negros, compromisso que a instituição assumiu no seu planejamento plurianual e vem tendo dificuldade em acessar, seja pela pouca visibilidade alcançada ou pelo baixo número de ocupação de cargos desse grupo em espaços de ciência”, diz Everaldo Pereira Frade, chefe do Serviço de Arquivo de História da Ciência (SEAHC-MAST).

As iniciativas reforçam a urgência de ações voltadas à preservação da memória, especialmente de grupos historicamente marginalizados e excluídos dos espaços de decisão. Ao unir esforços, MAST e Ipeafro garantem que esse patrimônio siga vivo, inspirando pesquisas, reflexões e práticas sociais comprometidas com a valorização da cultura negra.

SERVIÇO
Exposição: “Memória Negra em Cartaz(es), concebida pelo Ipeafro
Local: Museu de Astronomia (MAST) – São Cristóvão, Rio de Janeiro.
Período expositivo: De 17 de novembro de 2025 a 29 de março de 2026.
Entrada: gratuita.

HORÁRIOS
Terça a quinta-feira: das 8h30 às 17h.
Sábados: das 14h às 20h.
Feriados: das 14h às 18h.
Toda 3ª quarta-feira do mês: das 8h30 às 20h.

Sobre o Ipeafro
Fundado por Abdias Nascimento e Elisa Larkin Nascimento em 1981, o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) é uma associação sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro. Sua missão é preservar, gerir, articular e difundir o acervo de Abdias Nascimento para a permanência de memória e resistência. Esse trabalho embasa as ações educativas e culturais promovidas pelo Ipeafro como forma de enfrentamento ao racismo. O acervo contém uma coleção museológica da própria produção artística de Nascimento e de obras doadas para a o projeto Museu de Arte Negra, que nasceu da atuação do Teatro Experimental do Negro, fundado e dirigido por Nascimento a partir de 1944. O acervo documental do Ipeafro reúne a iconografia, os registros audiovisuais e os documentos de texto (recortes de jornais e revistas, programas teatrais, manuscritos, correspondências, registros de sua atuação parlamentar, e assim por diante) produzidos e recebidos por Abdias Nascimento e pelas organizações que ele criou.

Sobre Abdias Nascimento*
Abdias Nascimento (1914-2011), poeta, dramaturgo, artista plástico e ativista panafricano, foi deputado federal, senador da República e Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York (EUA). Como parlamentar, ele foi autor das primeiras propostas ao Estado brasileiro de políticas públicas de combate ao racismo (1983). É autor do conceito político-cultural do Quilombismo. Fundou o Teatro Experimental do Negro em 1944. Organizou em 1950 o 1o Congresso do Negro Brasileiro, que propôs a criação de um Museu de Arte Negra. Curador do projeto de 1950 até 1968, quando realizou sua exposição inaugural, ele continuou o trabalho no exílio (1968-1981), onde desenvolveu sua própria pintura e exibiu em museus, galerias e universidades dos Estados Unidos. Na volta ao Brasil, fundou o Ipeafro.

Sobre o MAST
O Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) é uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e tem como missão realizar pesquisas e formar especialistas nas áreas de história da ciência e da tecnologia, museologia, educação em ciências e conservação de acervos; preservar o patrimônio sob sua guarda; e ampliar o acesso da sociedade brasileira aos conhecimentos, às práticas e à cultura científica.

O museu mantém sob sua guarda um importante e estratégico acervo de ciência e tecnologia, que reúne fundos arquivísticos de cientistas brasileiros, instrumentos científicos, máquinas, equipamentos, mobiliário e esculturas, totalizando mais de dois mil objetos representativos do Patrimônio Científico do Brasil. Atualmente, o MAST é estruturado em cinco áreas finalísticas: História da Ciência e Tecnologia; Museologia; Documentação e Arquivo; e Educação em Ciências, áreas que caracterizam quatro coordenações finalísticas do museu. A partir delas, a instituição coordena projetos de pesquisas, desenvolve ações de ensino stricto sensu e lato sensu e apresenta regularmente ao público exposições e atividades planejadas, como oficinas, palestras, visitas orientadas e as tradicionais observações do sol e do céu.