Dia Internacional da Mulher e as Vozes do TEN

 
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o IPEAFRO se reúne às vozes e ações das mulheres no mundo, das trabalhadoras e das que pertencem a povos historicamente discriminados. Nosso tributo a todas elas, nas pessoas das mulheres do Teatro Experimental do Negro (TEN), que criaram no interior dessa organização a Associação de Empregadas Domésticas e o Conselho Nacional de Mulheres Negras. Arinda Serafim atuou na estreia do TEN no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 8 de maio de 1945, no papel da Velha Nativa da peça O imperador Jones. Marina Gonçalves, Ilena Teixeira, Mercedes Baptista, Ruth de Souza, Guiomar Ferreira de Mattos, Milca Cruz e outras mulheres se destacaram no TEN. Léa Garcia liderou uma geração mais jovem, com sua elegância e profundeza de interpretação na Rapsódia Negra e no Sortilégio (Mistério Negro) de Abdias Nascimento, além de reencenar O imperador Jones uma década após a estreia do TEN.
Maria Nascimento, autora da coluna “Fala a Mulher” no Quilombo, jornal do TEN, acabou de ganhar uma biografia escrita pela historiadora Giovana Xavier e publicada pela UFF. Nossa homenagem comovida a essas duas ativistas e intelectuais negras!
 
Conheça a coluna de Maria Nascimento no site do IPEAFRO:
 
 

Documentário sobre o TEN integra agenda oficial do #MarçoDeLutas

O documentário sobre o Teatro Experimental do Negro (TEN) está na agenda oficial da terceira edição do Março de Lutas,  uma agenda coletiva para reafirmar a resistência negra no Brasil. Lançado em 2016 pelo IPEAFRO e pelo Cultne, o filme celebra o aniversário de nascimento de Abdias do Nascimento (1914- 2011) – ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações afro-brasileira. A data do 14 de março é simbólica:  pois marca ainda o nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus, além de ser o marco do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Por lei estadual no Rio de Janeiro, o dia 14 de março é Dia do Ativista pelo aniversário de Abdias, e Dia Marielle Franco de Luta contra o Genocídio das Mulheres Negras.

A agenda é uma iniciativa da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), cujo objetivo é ampliar a mobilização do dia 08 de março, um marco internacional de luta contra o patriarcado e o racismo, para o mês inteiro a partir da agenda #MarçoDeLutas, um conjunto de ações coletivas para reafirmar a resistência negra e feminina no Brasil. O objetivo é que as mulheres negras brasileiras protagonizem uma chamada para compartilhar práticas, experiências, viabilizar denúncias para potencializar o enfrentamento ao racismo, o sexismo e a lesbitransfobia que impactam a vida das pessoas negras, especialmente as mulheres.

Ao vivo, acontecem dois encontros on-line. O primeiro é a Live “Mulheres Negras Contra a Violência Política”, com a participação de parlamentares brasileiras que sofreram ataques recentes, no dia 05 de março, às 19h. O segundo é o “Diálogo Internacional – 20 anos da Conferência de Durban e a luta global contra o Racismo”, com a presença de mulheres negras das Américas, em 19 de março, às 15h.

No dia 08 de março será lançada uma revista eletrônica sobre o protagonismo das mulheres negras numa das maiores mobilizações brasileiras, em termos de articulação e engajamento. “Marcha das Mulheres Negras – Da ancestralidade ao futuro” é o nome da revista eletrônica, resultado de parceria da AMNB com o Cultne – Maior acervo digital de cultura negra da América Latina, que também é parceiro na exibição de materiais de audiovisual do acervo e produção de materiais inéditos sobre o legado da luta das mulheres negras no Brasil.

“O Março de Lutas vai reafirmar a denúncia contra as violações de direitos humanos, protagonizadas pelo Estado brasileiro, bem como, visa reforçar os debates sobre a importância da vida das mulheres negras no que diz respeito ao enfrentamento a violência doméstica, o feminicídio, o racismo religioso e a violência política”, comenta Valdecir Nascimento, coordenadora executiva da AMNB.

O conjunto de ações honra legados e trajetórias de pessoas e organizações negras com marcos históricos no mês de março como: os 3 anos do assassinato da militante negra parlamentar Marielle Franco, no dia 14 de março de 2018, ainda sem justiça; Neste mesmo dia homenageamos o nascimento de duas estrelas negras que tiveram grande contribuição para a luta negra brasileira: Carolina Maria de Jesus e Abdias Nascimento – ambos nascidos em 14 de março de 1914.

Já no dia 16 de março de 2021 faz sete anos que a trabalhadora Claúdia Ferreira foi assassinada por Policiais Militares (PMs) do Rio de Janeiro e arrastada do lado de fora da viatura, fato que será lembrado. É também em março, dia 21, que celebramos o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Em 27 de março celebramos o nascimento de outra estrela negra brasileira, Luiza Bairros, que tem inspirado homens e mulheres negras com seu legado.

“Continuaremos em marcha até que todas as Marielles, Claudias, Carolinas, Abdias e Luizas tenham direito à vida e ao Bem Viver”, ressalta a coordenadora executiva da AMNB, Valdecir Nascimento. A primeira edição do Março de Lutas foi criada em 2019, em Salvador (BA), pelo Odara – Instituto da Mulher Negra. Nas edições anteriores foram realizadas ações de comunicação em alusão às datas que fazem parte da agenda. Confira a agenda completa no quadro abaixo.

Sobre a AMNB – A Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) é constituída por 49 organizações de mulheres negras, distribuídas nas cinco regiões do Brasil. São 20 anos atuando com a missão institucional de promover a ação política articulada de grupos e organizações integrantes, com enfrentamento ao racismo, sexismo, lesbofobia e todas as formas de discriminação.

Serviço – Março de Lutas / Agenda AMNB

Site com Programação detalhada: http://amnb.org.br/marcodelutas

Fotos de Divulgação: http://bit.ly/FotosAMNBImprensa

Redes: https://www.instagram.com/amnboficial/

Local das Lives: http://bit.ly/YoutubeAMNB

Assessoria de imprensa – Paó Comunicação/Cultne: 61 98179-9316

Data/Hora PROGRAMAÇÃO – Março de Lutas 2021
01/03 Lançamento do hotsite da campanha nas redes sociais
05/03 – 19h Live “Mulheres Negras Contra a Violência Política”

Participantes: Ana Lúcia Martins (Vereadora PT \ Joinville); Vereadora Carol Dartora (Vereadora PT / Curitiba); Vereadora Dandara (Vereadora PT / Uberlândia);  Lívia Duarte  (Vereadora PSOL/ Belém); Erica Hilton (Vereadora PSOL / SP).

Mediação: Terlúcia Silva (AMNB)

Transmissão – Canais do Youtube e Facebook da AMNB

08/03 – 19h30 Lançamento da Revista Eletrônica “Marcha das Mulheres Negras – Da ancestralidade ao futuro”

Transmissão: Canais do Youtube e Facebook – AMNB

14/03 – 19h30 19h30 – Re-exibição de curta-metragens produzidos pelo acervo Cultne:

“Marielle Presente – Eu sou porque nós somos”;

“Teatro Experimental do Negro – Abdias Nascimento”;

“Quarto de Despejo – Carolina Maria de Jesus”, estrelando Ruth de Souza.

Transmissão: Canais do Youtube e Facebook – AMNB

16/03 – 19h30 Re-exibição do documentário “Somos tod@s Claudia!!”, ato público registrado pelo acervo Cultne em 2014.
Transmissão: Canais do Youtube e Facebook – AMNB
19/03 – 15h Diálogo Internacional – 20 anos da Conferência de Durban e a luta global contra o Racismo.
21/03 Mobilização nas redes sociais da AMNB:

Publicação de materiais da campanha em alusão ao Dia de Eliminação da Discriminação Racial

27/03 – 19h30 Lançamento do documentário “Tributo à Luiza Bairros” produzido pelo acervo Cultne.

Transmissão: Canais do Youtube e Facebook – AMNB

31/03 Mobilização nas redes sociais da AMNB:

Publicação de materiais da campanha para referenciar a participação da população negra na luta pela democracia e contra a ditadura militar.

 

Exposição “Escrito no Corpo” parte de acervo do TEN e do MAN

 
 

Para visitação online: http://fdag-escritonocorpo.com.br/

Em cartaz na Carpintaria (Rua Jardim Botânico, 971, Rio de Janeiro), a exposição “Escrito no Corpo” propõe uma costura entre produções de jovens e consagrados artistas, em diálogo com o acervo do Teatro Experimental do Negro, fundado e dirigido por Abdias Nascimento. Keyna Eleison e Victor Gorgulho assinam a curadoria da mostra, que também reflete sobre a dimensão narrativa do corpo através de diferentes abordagens. As obras apresentadas no espaço partilham a ideia de uma escrita de si através do ato performativo, apresentado em suas múltiplas possibilidades de documentação.

Um dos destaques da exposição é uma obra do nosso artista representado Ayrson Heráclito – “História do Futuro – Corpo e Sal: o capítulo da hidromancia” (2015) – que faz parte de uma série de trabalhos realizados durante a sua passagem pelo Senegal. Em comum, as obras dessa série trazem diferentes elementos naturais – a água, o ar e a terra – e o desejo do artista de compartilhar um futuro com caminhos abertos, tempo para reflexão e esperança em mudanças.

Completam o time de artistas que participam da mostra: Ana Beatriz Almeida, Efrain Almeida, Armando Andrade Tudela, Castiel Vitorino Brasileiro, Rodrigo Cass, Panmela Castro, Melissa de Oliveira, Herbert De Paz, Diambe, Hélio Eichbauer, Moisés Patrício, Iagor Peres, Agrippina R. Manhattan, Abdias Nascimento, Rafael José, Carla Santana, Antonio Tarsis e Adriana Varejão.

Não deixe de visitar a Carpintaria e conferir “Escrito no Corpo”, que segue até 06.02.21. A entrada é gratuita e o horário de visitação é de terça a sexta, das 10h30 às 20h; e sábados, das 12h às 20h. Para visitação online: Para visita online: http://fdag-escritonocorpo.com.br/

76 ANOS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO (TEN)

Em 13 de outubro de 1944, o Teatro Experimental do Negro (TEN) foi fundado, no Rio de Janeiro, por iniciativa do professor Abdias Nascimento (1914-2011), com o apoio de amig@s e intelectuais brasileiros. A proposta de ação da companhia era valorizar socialmente a herança cultural, a identidade e a dignidade do afro-brasileiro por meio da educação, da cultura e da arte. Umas das ações mais simbólicas do grupo foi a realização de aulas para alfabetização dos participantes do grupo de teatro (Foto: acervo IPEAFRO).

Resolvi tentar meu teatro negro no Rio de Janeiro. A primeira reunião foi no café Amarelinho, na Cinelândia: Aguinaldo Camargo, o pintor Wilson Tibério, Teodorico dos Santos, José Herbel.
– Abdias Nascimento

A Seção TEN do acervo contém documentos do Teatro Experimental do Negro (TEN). Criado em 1944, o TEN foi idealizado, fundado e dirigido por Abdias Nascimento, com o objetivo de valorizar o negro e sua cultura através do teatro.

A proposta de ação do TEN englobava cidadania e conscientização racial. Ao recrutar seu elenco, o TEN tinha, como público alvo, pessoas oriundas do operariado, empregadas domésticas e pessoas sem profissão definida.

O recrutamento das pessoas era muito eclético. Queríamos gente sem qualquer tarimba, pois tarimba de negro no teatro se restringia ao rebolado ou às palhaçadas. Veio gente humilde, dos morros.
– Abdias Nascimento

O TEN realizou cursos de alfabetização para que seus integrantes pudessem dominar a leitura para poder ensaiar. Os cursos noturnos abordavam também conhecimentos gerais e culturais. As aulas aconteciam no restaurante do prédio da UNE na Praia do Flamengo e eram coordenadas por Abdias Nascimento e ministradas por ele, Ironides Rodrigues e Aguinaldo Camargo.

A um só tempo, o TEN alfabetizava seus primeiros participantes e oferecia-lhes uma nova atitude, um critério próprio que os habilitava também a ver, enxergar o espaço que ocupava o grupo afro-brasileiro no contexto nacional.
– Abdias Nascimento

Na hora de escolher uma peça para sua estreia, e verificando a ausência de textos na dramaturgia brasileira que atendessem aos seus objetivos, Abdias Nascimento recorreu à obra O imperador Jones, do renomado dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill. Em 1945, O’Neill cedeu gratuitamente ao TEN os direitos para encenar sua peça, em tradução de Ricardo Werneck.

Após meses de ensaio, o TEN estreou com O imperador Jones no dia 8 de maio de 1945, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, tendo como protagonista o grande ator Aguinaldo Camargo.

Para além da dramaturgia como meio de conscientização do negro, o TEN desempenhou atividades de caráter social e artístico. Assim, a atuação do TEN alcançou outros palcos, revelando a militância e o engajamento feminino nas lutas contra a discriminação. A atuação das mulheres foi uma base importante de suas realizações.

Arinda Serafim, Elza de Souza, Marina Gonçalves, Ruth de Souza, Ilena Teixeira, Neusa Paladino, Maria d’Aparecida, Mercedes Baptista e Agostinha Reis estão entre as mulheres que participaram desde os primeiros momentos do TEN. Muitas delas eram empregadas domésticas, e lideravam a defesa de seus direitos. A advogada Guiomar Ferreira de Mattos atuava intensamente nessa causa.

Duas organizações de mulheres negras fizeram parte do TEN: a Associação das Empregadas Domésticas e o Conselho Nacional de Mulheres Negras.

Teve muita “madame” que se aborreceu com o TEN: nós estávamos botando minhocas nas cabeças de suas empregadas.
– Abdias Nascimento

Com sua coluna “Fala a Mulher” no jornal Quilombo, órgão informativo do TEN, Maria de Lourdes Valle do Nascimento teve presença destacada na luta das mulheres contra a discriminação. Ela idealizou também o Ballet Infantil do TEN.

O jornal Quilombo integrava uma imprensa negra que vinha ativa, sobretudo em São Paulo, de longa data. Porta-voz dos afrodescendentes, o periódico funcionava como espaço de denúncias de discriminação e apoiava organizações afro-brasileiras em todo o Brasil, publicando entrevistas com seus líderes e divulgando suas atividades.

Em outra cena, o TEN criticou o conceito de beleza nos certames como o de Miss Brasil:

“Nesses concursos jamais foi constatada a presença de uma candidata de cor. Todas elas eram brancas, dentro dos melhores e mais exigentes moldes da Vênus de Milo”, observou o colunista Doutel de Andrade em 1948.

No intuito de restituir a autoestima negada às mulheres negras, o TEN promoveu os concursos “Boneca de Pixe” e “Rainha das Mulatas”. Os critérios de julgamento incluíam o talento criativo, os dotes intelectuais e a postura ética da candidata. Mas com o tempo, ficou difícil manter o padrão de seriedade que exigia a intenção pedagógica dos concursos. À medida que os eventos cresceram, a mídia e o público passaram a desvirtuar essa intenção, e o TEN suspendeu os concursos.

Houve críticos esquerdistas fazendo confusão dos concursos com exploração meramente sexual da mulher negra. Essas pessoas não compreendiam, não podiam compreender a distância que nos separava qual uma linha eletrificada, de tais preocupações. Pois o alvo desses concursos era exatamente pôr um ponto final na tradição brasileira de só ver na mulher negra e mulata um objeto erótico, o que vem acontecendo desde os recuados tempos do Brasil-Colônia.
– Abdias Nascimento

Mais tarde Léa Garcia, Marietta Campos, Milca Cruz, Dulce Martins, Heloísa Helô, Estela Delfino, Thereza Santos e outras mulheres deram continuidade à atuação cênica e social do TEN.

Em 1955, o TEN promoveu a Semana do Negro e no mesmo ano, o concurso de artes plásticas sobre o tema do Cristo Negro. Em 1961, publicou a antologia Dramas para negros e prólogo para brancos, e em 1964 realizou o curso Introdução ao Teatro Negro. Sua atuação se destacou no cenário cultural do Rio de Janeiro até 1968, quando, após a primeira exposição da coleção Museu de Arte Negra, Abdias Nascimento permaneceu no exterior em razão da repressão política. Os livros Teatro Experimental do Negro – TestemunhosO negro revoltado, e Relações raciais no Brasil registram boa parte da atuação do TEN e seu contexto social.

A seguir, você pode conhecer de forma mais detalhada alguns aspectos dessa atuação do TEN e de sua história, documentados nos registros do acervo do Ipeafro que vimos apresentando por meio de nosso Acervo Digital.

Antecedentes do TEN – Santa Hermandad Orquídea

No final da década de 1930, criou-se no Rio de Janeiro o grupo Santa Hermandad Orquídea, formado por seis poetas e artistas: os argentinos Godofredo Iommi, Efraín Tomás Bó e Raúl Young; e os brasileiros Gerardo Mello Mourão, Napoleão Lopes Filho e Abdias Nascimento.

Em 1941, a Santa Hermandad Orquídea embarcou para o Amazonas e seguiu viagem pela América do Sul. Em sua passagem pelo Peru, Abdias e seu grupo assistiram ao espetáculo O imperador Jones, de Eugene O’Neill, no Teatro Municipal de Lima, capital daquele país. O ator branco argentino Hugo D’Evieri, do Teatro Del Pueblo de Buenos Aires, fazia o papel do protagonista principal, pintado de preto.

Para Abdias, um ator branco fazendo o protagonista negro simbolizava o racismo que excluía o negro do teatro não apenas ali em Lima, mas no teatro como um todo, símbolo e representação da própria civilização do Ocidente. Ele decidiu então criar, na volta ao seu país, um teatro negro, como forma de denunciar e lutar contra o racismo e valorizar a cultura de origem africana. Seguindo viagem, ele passou um ano em Buenos Aires, no Teatro Del Pueblo, onde aprofundou seu conhecimento e se engajou numa prática intensiva de teatro.

Antecedentes do TEN – Teatro do Sentenciado (Carandiru)

Condenado à revelia por ter resistido à discriminação racial em incidentes anteriores à sua viagem pela América do Sul, Abdias Nascimento foi preso em 1942 ao voltar para São Paulo. Cumprindo pena na Penitenciária do Carandiru, resolveu pôr em prática seu projeto de criar um teatro.

Abdias levou a sugestão ao diretor da penitenciária, Dr. Flamínio Fávero, que concordou com a ideia e o autorizou a executá-la. Criou-se, então, o Teatro do Sentenciado, um projeto de vanguarda para a época, onde os presos criavam e encenavam seus próprios textos.

Atuação Teatral do TEN

O TEN marcou de forma indelével a história do teatro brasileiro ao promover a valorização da identidade negra na dimensão cultural, histórica, étnica e artística. O estudo e a reelaboração criativa dos valores da cultura de matriz africana no Brasil moldaram a atuação artística do TEN, que era sempre acompanhada do ativismo cívico pela democracia e os direitos humanos.

“Na rota dos propósitos revolucionários do Teatro Experimental do Negro vamos encontrar a introdução do herói negro com seu formidável potencial trágico e lírico nos palcos brasileiros e na literatura dramática do país.”
– Abdias Nascimento

Além de encenar peças de teatro com uma qualidade plástica e dramática muito elogiada pela crítica da época, o TEN incentivou a criação de uma dramaturgia de autoria negra e sobre temas da vida do povo de matriz africana.

Peças encenadas

O imperador Jones, de Eugene O’Neill
Todos os filhos de Deus têm asas, de Eugene O’Neill
Festival do II aniversário do TEN
O moleque sonhador, de Eugene O’Neill
Recital Castro Alves
Calígula, de Albert Camus
O filho pródigo, de Lúcio Cardoso
Ato Poético Cruz e Souza
Aruanda, de Joaquim Ribeiro
Filhos de santo, de José de Moraes Pinho
Rapsódia negra, de Abdias Nascimento
Onde está marcada a cruz, de Eugene O’Neill
Sortilégio (mistério negro), de Abdias Nascimento
O sapo e a estrela, de Hermilo Borba Filho

Atuação política do TEN

Em 1945, o TEN organizou a Convenção Nacional do Negro Brasileiro, que teve sua primeira reunião em São Paulo e a segunda em 1946 no Rio de Janeiro.

A Convenção Nacional do Negro Brasileiro lançou, em 1945, o Manifesto à Nação Brasileira, reivindicando que a nova Carta Magna explicitasse a origem étnica do povo brasileiro, definisse o racismo como crime de lesa-pátria e punisse a sua prática como crime.O Manifesto também demandou políticas positivas de igualdade racial, como bolsas de estudos e incentivos fiscais.

Vários partidos subscreveram o Manifesto, inclusive o PTB, a UDN, o PSD e o PCB de Luiz Carlos Prestes. Mas quando o senador Hamilton Nogueira apresentou o projeto, a Assembleia Nacional Constituinte de 1946 o rejeitou sob a alegação de inexistirem provas de discriminação racial no país. O TEN passou, então, a denunciar vários casos de discriminação, inclusive os da antropóloga Irene Diggs e da coreógrafa Katherine Dunham. A divulgação desses casos ajudou a criar as condições para a posterior promulgação de uma legislação fraca e ineficaz, conhecida como Lei Afonso Arinos.

Ciente da necessidade de ter parlamentares negros para defenderem no Congresso propostas que beneficiassem a população negra, o TEN incentivou e apoiou o lançamento de candidatos negros. Seu jornal Quilombo abriu espaço para candidatos negros de todos os partidos.

A atuação política do TEN manteve-se ao longo do tempo. Em 1966, por exemplo, ele lançou uma Declaração de Princípios em que se posicionou contra o colonialismo, reivindicando o mesmo posicionamento do governo brasileiro.

O 1º Congresso do Negro Brasileiro (1950)

O 1º Congresso do Negro Brasileiro se definiu como um evento de estudo e reflexão e, ainda, um acontecimento político de cunho popular, em contraste a outros certames como os Congressos Afro-Brasileiros de Recife (1934) e Salvador (1937), que tratavam o negro como um simples objeto de pesquisa.

Os intelectuais negros reunidos na Conferência preparatória ao 1º Congresso do Negro Brasileiro, em 1949, insistiam no princípio de políticas de igualdade racial que antes propuseram à Assembleia Constituinte de 1946. Nas palavras do escritor Fernando Góes:

“É tempo de todos olharem o negro como um ser humano, e não como simples curiosidade ou assunto para eruditas divagações científicas. Que se cuide da ciência, não é só louvável, como imprescindível. Mas que se assista ao desmoronamento e à degradação de uma raça, de braços cruzados, me parece um crime, e um crime tanto maior quando se sabe o que representou para a formação e o desenvolvimento econômico do nosso País.”

Os anais do 1º Congresso do Negro Brasileiro encontram-se publicados, parcialmente, no livro O negro revoltado, que Abdias Nascimento só conseguiu publicar em 1968.

Há 74 anos, o TEN fazia sua estreia no Municipal do Rio de Janeiro

Aguinaldo Camargo, em primeiro plano, em cena

Sob intensa expectativa, a 8 de maio de 1945, uma noite histórica para o teatro brasileiro, o TEN apresentou seu espetáculo fundador. O estreante ator Aguinaldo Camargo entrou no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde antes nunca pisara um negro como intérprete ou como público, e, numa interpretação inesquecível, viveu o trágico Brutus Jones, em o Imperador Jones, de Eugene de O’Neill. Henrique Pongetti, cronista de O Globo, registrou: “Os negros do Brasil – e os brancos também – possuem agora um grande astro dramático: Aguinaldo de Oliveira Camargo. Um anti-escolar, rústico, instintivo grande ator”.

Para celebrar a data, recordamos trecho de texto escrito por um dos fundadores do TEN, Abdias Nascimento, publicado originalmente na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 25, 1997, pp. 71-81. O material foi elaborado com a colaboração de Elisa Larkin Nascimento, diretora do IPEAFRO

TEN presente! 

Teatro Experimental do Negro: trajetória e reflexões
Por ABDIAS DO NASCIMENTO

VÁRIAS INTERROGAÇÕES suscitaram ao meu espírito a tragédia daquele negro infeliz que o gênio de Eugene O’Neill transformou em O Imperador Jones. Isso acontecia no Teatro Municipal de Lima, capital do Peru, onde me encontrava com os poetas Efraín Tomás Bó, Godofredo Tito Iommi e Raul Young, argentinos, e o brasileiro Napoleão Lopes Filho. Ao próprio impacto da peça juntava-se outro fato chocante: o papel do herói representado por um ator branco tingido de preto.

Àquela época, 1941, eu nada sabia de teatro, economista que era, e não possuía qualificação técnica para julgar a qualidade interpretativa de Hugo D’Evieri. Porém, algo denunciava a carência daquela força passional específica requerida pelo texto, e que unicamente o artista negro poderia infundir à vivência cênica desse protagonista, pois o drama de Brutus Jones é o dilema, a dor, as chagas existenciais da pessoa de origem africana na sociedade racista das Américas.

Por que um branco brochado de negro? Pela inexistência de um intérprete dessa raça? Entretanto, lembrava que, em meu país, onde mais de vinte milhões de negros somavam a quase metade de sua população de sessenta milhões de habitantes, na época, jamais assistira a um espetáculo cujo papel principal tivesse sido representado por um artista da minha cor. Não seria, então, o Brasil, uma verdadeira democracia racial? Minhas indagações avançaram mais longe: na minha pátria, tão orgulhosa de haver resolvido exemplarmente a convivência entre pretos e brancos, deveria ser normal a presença do negro em cena, não só em papéis secundários e grotescos, conforme acontecia, mas encarnando qualquer personagem – Hamlet ou Antígona – desde que possuísse o talento requerido. Ocorria de fato o inverso: até mesmo um Imperador Jones, se levado aos palcos brasileiros, teria necessariamente o desempenho de um ator branco caiado de preto, a exemplo do que sucedia desde sempre com as encenações de Otelo. Mesmo em peças nativas, tipo O demônio familiar (1857), de José de Alencar, ou Iaiá boneca (1939), de Ernani Fornari, em papéis destinados especificamente a atores negros se teve como norma a exclusão do negro autêntico em favor do negro caricatural. Brochava-se de negro um ator ou atriz branca quando o papel contivesse certo destaque cênico ou alguma qualificação dramática. Intérprete negro só se utilizava para imprimir certa cor local ao cenário, em papéis ridículos, brejeiros e de conotações pejorativas.

Devemos ter em mente que até o aparecimento de Os Comediantes e de Nelson Rodrigues – que procederam à nacionalização do teatro brasileiro em termos de texto, dicção, encenação e impostação do espetáculo – nossa cena vivia da reprodução de um teatro de marca portuguesa que em nada refletia uma estética emergente de nosso povo e de nossos valores de representação. Esta verificação reforçava a rejeição do negro como personagem e intérprete, e de sua vida própria, com peripécias específicas no campo sociocultural e religioso, como
temática da nossa literatura dramática.

Naquela noite em Lima, essa constatação melancólica exigiu de mim uma resolução no sentido de fazer alguma coisa para ajudar a erradicar o absurdo que isso significava para o negro e os prejuízos de ordem cultural para o meu país. Ao fim do espetáculo, tinha chegado a uma determinação: no meu regresso ao Brasil, criaria um organismo teatral aberto ao protagonismo do negro, onde ele ascendesse da condição adjetiva e folclórica para a de sujeito e herói das histórias que representasse. Antes de uma reivindicação ou um protesto, compreendi a mudança pretendida na minha ação futura como a defesa da verdade cultural do Brasil e uma contribuição ao humanismo que respeita todos os homens e as diversas culturas com suas respectivas essencialidades. Não seria outro o sentido de tentar desfiar, desmascarar e transformar os fundamentos daquela anormalidade objetiva dos idos de 1944, pois dizer teatro genuíno – fruto da imaginação e do poder criador do homem – é dizer mergulho nas raízes da vida. E vida brasileira excluindo o negro de seu centro vital, só por cegueira ou deformação da realidade.

Brutus Jones (Abdias Nascimento) sentado em uma cadeira segurando um revolver com a mão direita mostrando as munições com a esquerda para Smithers (Paulo Costard)

Fundação e estréia do TEN
Engajado a estes propósitos, surgiu, em 1944, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro, ou TEN, que se propunha a resgatar, no Brasil, os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, degradados e negados por uma sociedade dominante que, desde os tempos da colônia, portava a bagagem mental de sua formação metropolitana européia, imbuída de conceitos pseudo-científicos
sobre a inferioridade da raça negra. Propunha-se o TEN a trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte.

Pela resposta da imprensa e de outros setores da sociedade, constatei, aos primeiros anúncios da criação deste movimento, que sua própria denominação surgia em nosso meio como um fermento revolucionário. A menção pública do vocábulo “negro” provocava sussurros de indignação. Era previsível, aliás, esse destino polêmico do TEN, numa sociedade que há séculos tentava esconder o sol da verdadeira prática do racismo e da discriminação racial com a peneira furada do mito da “democracia racial”. Mesmo os movimentos culturais aparentemente
mais abertos e progressistas, como a Semana de Arte Moderna, de São Paulo, em 1922, sempre evitaram até mesmo mencionar o tabu das nossas relações raciais entre negros e brancos, e o fenômeno de uma cultura afro-brasileira à margem da cultura convencional do país.

Polidamente rechaçada pelo então festejado intelectual mulato Mário de Andrade, de São Paulo, minha idéia de um Teatro Experimental do Negro recebeu as primeiras adesões: o advogado Aguinaldo de Oliveira Camargo, companheiro e amigo desde o Congresso Afro-Campineiro que realizamos juntos em 1938; o pintor Wilson Tibério, há tempos radicado na Europa; Teodorico dos Santos e José Herbel. A estes cinco, se juntaram logo depois Sebastião Rodrigues Alves, militante negro; Arinda Serafim, Ruth de Souza, Marina Gonçalves, empregadas
domésticas; o jovem e valoroso Claudiano Filho; Oscar Araújo, José da Silva, Antonieta, Antonio Barbosa, Natalino Dionísio, e tantos outros.
Teríamos que agir urgentemente em duas frentes: promover, de um lado, a denúncia dos equívocos e da alienação dos chamados estudos afro-brasileiros, e fazer com que o próprio negro tomasse consciência da situação objetiva em que se achava inserido. Tarefa difícil, quase sobre-humana, se não esquecermos a escravidão espiritual, cultural, socioeconômica e política em que foi mantido antes e depois de 1888, quando teoricamente se libertara da servidão.

A um só tempo o TEN alfabetizava seus primeiros participantes, recrutados entre operários, empregados domésticos, favelados sem profissão definida, modestos funcionários públicos – e oferecia-lhes uma nova atitude, um critério próprio que os habilitava também a ver, enxergar o espaço que ocupava o grupo afro-brasileiro no contexto nacional. Inauguramos a fase prática, oposta ao sentido acadêmico e descritivo dos referidos e equivocados estudos. Não interessava ao TEN aumentar o número de monografias e outros escritos, nem deduzir
teorias, mas a transformação qualitativa da interação social entre brancos e negros. Verificamos que nenhuma outra situação jamais precisara tanto quanto a nossa do distanciamento de Bertolt Brecht. Uma teia de imposturas, sedimentada pela tradição, se impunha entre o observador e a realidade, deformando-a. Urgia destruí-la. Do contrário, não conseguiríamos descomprometer a abordagem da questão, livrá-la dos despistamentos, do paternalismo, dos interesses criados, do dogmatismo, da pieguice, da má-fé, da obtusidade, da boa-fé, dos estereótipos vários. Tocar tudo como se fosse pela primeira vez, eis uma imposição irredutível.

Cerca de seiscentas pessoas, entre homens e mulheres, se inscreveram no curso de alfabetização do TEN, a cargo do escritor Ironides Rodrigues, estudante de direito dotado de um conhecimento cultural extraordinário. Outro curso básico, de iniciação à cultura geral, era lecionado por Aguinaldo Camargo, personalidade e intelecto ímpar no meio cultural da comunidade negra. Enquanto as primeiras noções de teatro e interpretação ficavam a meu cargo, o TEN abriu o debate dos temas que interessavam ao grupo, convidando vários palestrantes, entre os quais a professora Maria Yeda Leite, o professor Rex Crawford, adido cultural da Embaixada dos Estados Unidos, o poeta José Francisco Coelho, o escritor Raimundo Souza Dantas, o professor José Carlos Lisboa.

Após seis meses de debates, aulas e exercícios práticos de atuação em cena, preparados estavam os primeiros artistas do TEN. Estávamos em condições de apresentar publicamente o nosso elenco. Revelou-se então a necessidade de uma peça ao nível das ambições artísticas e sociais do movimento: em primeiro lugar, o resgate do legado cultural e humano do africano no Brasil. O que então se valorizava e divulgava em termos de cultura afro-brasileira, batizado de “reminiscências”, eram o mero folclore e os rituais do candomblé, servidos como alimento exótico pela indústria turística (no mesmo sentido podemos inscrever hoje a exploração do samba, criação afro-brasileira, pela classe dominante branca, levada nos últimos anos ao exagero do espetáculo carnavalesco luxuoso e, pela carestia, cada vez mais longe do alcance do povo que o criou).

O TEN não se contentaria com a reprodução de tais lugares-comuns, pois procurava dimensionar a verdade dramática, profunda e complexa, da vida e da personalidade do grupo afro-brasileiro. Qual o repertório nacional existente? Escassíssimo. Uns poucos dramas superados, onde o negro fazia o cômico, o pitoresco, ou a figuração decorativa: O demônio familiar (1857) e Mãe (1859), ambas de José de Alencar; Os cancros sociais (1865), de Maria Ribeiro; O escravo fiel (1858), de Carlos Antonio Cordeiro; O escravocrata (1884) e O dote (1907), de Artur Azevedo, a primeira com a colaboração de Urbano Duarte; Calabar (1858), de Agrário de Menezes; as comédias de Martins Pena (1815-1848). E
nada mais. Nem ao menos um único texto que refletisse nossa dramática situação existencial.

Sem possibilidade de opção, O imperador Jones se impôs como solução natural. Não cumprira a obra de O’Neill idêntico papel nos destinos do negro norte-americano? Tratava-se de uma peça significativa: transpondo as fronteiras do real, da logicidade racionalista da cultura branca, não condensava a tragédia daquele burlesco imperador um alto instante da concepção mágica do mundo, da visão transcendente e do mistério cósmico, das núpcias perenes do africano com as forças prístinas da natureza? O comportamento mítico do Homem nela se achava presente. Ao nível do cotidiano, porém, Jones resumia a experiência do negro no mundo branco, onde, depois de ter sido escravizado, libertam-no e o atiram nos mais baixos desvãos da sociedade. Transviado num mundo que não é o seu, Brutus Jones aprende os maliciosos valores do dinheiro, deixa-se seduzir pela miragem do poder. Além do impacto dramático, a peça trazia a oportunidade de reflexão e debate em torno de temas fundamentais aos propósitos do TEN.

Escrevemos a Eugene O’Neill uma carta aflita de socorro. Nenhuma resposta jamais foi tão ansiosamente esperada. Quem já não sentiu a atmosfera de solidão e pessimismo que rodeia o gesto inaugural, quando se tem a sustentá-lo unicamente o poder de um sonho? De seu leito de enfermo, em São Francisco, a 6 de dezembro de 1944, O’Neill nos respondeu:

You have my permission to produce The Emperor Jones without any payment to me, and I want to wish you all the success you hope for with your Teatro Experimental do Negro. I know very well the conditions you describe in the Brazilian theatre. We had exactly the same conditions in our theatre before The Emperor Jones was produced in New York in 1920 – parts of any consequence were always played by blacked-up white actors. (This, of course, did not apply to musical comedy or vaudeville, where a few negroes managed to achieve great
sucess). After The Emperor Jones, played originally by Charles Gilpin and later by Paul Robeson, made a great success, the way was open for the negro to play serious drama in our theatre. What hampers most now is the lack of plays, but I think before long there will be negro dramatists of real merit to overcome this lack.

(O senhor tem a minha permissão para encenar O imperador Jones isento de qualquer direito autoral, e quero desejar ao senhor todo o sucesso que espera com o seu Teatro Experimental do Negro. Conheço perfeitamente as condições que descreve sobre o
teatro brasileiro. Nós tínhamos exatamente as mesmas condições em nosso teatro antes de O imperador Jones ser encenado em Nova York em 1920 – papéis de qualquer destaque eram sempre representados por atores brancos pintados de preto. (Isso, naturalmente, não se aplica às comédias musicadas ou ao vaudeville, onde uns poucos negros conseguiram grande sucesso). Depois que O imperador Jones, representado primeiramente por Charles Gilpin e mais tarde por Paul Robeson, fez um grande sucesso, o caminho estava aberto para o negro representar dramas sérios em nosso teatro. O principal impedimento agora é a falta de peças, mas creio que logo aparecerão
dramaturgos negros de real mérito para suprir essa lacuna”.)

Esta generosa adesão e lúcido conselho tiveram importância decisiva em nosso projeto. Transformaram o total desamparo das primeiras horas em confiança e euforia. Ajudaram a que nos tornássemos capazes de suprir com intuição e audácia o que nos faltava em conhecimento de técnica teatral e em recurso financeiro para enfrentar as inevitáveis despesas com cenários, figurinos, maquinistas, eletricistas, contra-regra. Encontramos em Aguinaldo de Oliveira Camargo a força dramática capaz de dimensionar a complexidade psicológica de Brutus Jones.
Ricardo Werneck de Aguiar nos ofereceu uma excelente tradução. Os mais belos e menos onerosos cenários que poderíamos pretender foram criados pelo pintor Enrico Bianco, os quais se tornaram clássicos no teatro brasileiro. A colaboração desses dois amigos brancos do teatro negro iniciou uma tradição que depois se consolidaria com a ação solidária de muitos outros amigos do TEN, entre eles o fotógrafo José Medeiros, o diretor teatral Willy Keller, o cenógrafo Santa Rosa, o diretor Léo Jusi, assim como o ator Sady Cabral, que encarnou o Smithers deO imperador Jones.

Sob intensa expectativa, a 8 de maio de 1945, uma noite histórica para o teatro brasileiro, o TEN apresentou seu espetáculo fundador. O estreante ator Aguinaldo Camargo entrou no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde antes nunca pisara um negro como intérprete ou como público, e, numa interpretação inesquecível, viveu o trágico Brutus Jones, de O’Neill. Na sua unanimidade, a crítica saudou entusiasticamente o aparecimento do Teatro Experimental do Negro e do grande ator negro Aguinaldo Camargo, comparando-o em estrutura dramática a Paul Robeson, que também desempenhou o mesmo personagem nos Estados Unidos. Henrique Pongetti, cronista de O Globo, registrou: “Os negros do Brasil – e os brancos também – possuem agora um grande astro dramático: Aguinaldo de Oliveira Camargo. Um anti-escolar, rústico, instintivo grande ator”.

Um clima de pessimismo e descrença dos meios culturais havia cercado a estréia do TEN, expresso nessas palavras do escritor Ascendino Leite:
Nossa surpresa foi tanto maior quanto as dúvidas que alimentávamos relativamente à escolha do repertório que começava, precisamente, por incluir um autor da força e da expressão de um O’Neill. Augurávamos para o Teatro Experimental do Negro um redondo fracasso. E, no mínimo, formulávamos censuras à audácia com que esse grupo de intérpretes, quase todos desconhecidos, ousava enfrentar um público que já começava a ver no teatro mais do que um divertimento, uma forma mais direta de penetração no centro da vida e da natureza humana. Aguinaldo Camargo em O Imperador Jones foi, no entanto, uma revelação.

R. Magalhães Júnior traduziu o desejo dos que não assistiram:

O espetáculo de estréia do Teatro do Negro merecia, na verdade, ser repetido, porque foi um espetáculo notável. E notável por vários títulos. Pela direção firme e segura com que foi conduzido. Pelos esplêndidos e artísticos cenários sintéticos de Enrico Bianco. E pela magistral interpretação de Aguinaldo de Oliveira Camargo no papel do negro Jones.

Infelizmente, as circunstâncias não permitiram a repetição daquele espetáculo, pois o palco do Teatro Municipal havia sido concedido ao TEN por uma única noite, e assim mesmo por intervenção direta do Presidente Getúlio Vargas, num gesto no mínimo insólito para os meios culturais da sociedade carioca.

Conquistara o TEN sua primeira vitória. Encerrada estava a fase do negro sinônimo de palhaçada na cena brasileira. Um ator fabuloso como Grande Otelo poderia de agora em diante continuar extravasando sua comicidade. Mas já se sabia que outros caminhos estavam abertos e que só a cegueira ou a má vontade dos empresários continuaria não permitindo que as platéias conhecessem o que, muito acima da graça repetida, seria capaz o talento de atores negros como Grande Otelo e Aguinaldo Camargo.

Como diria mais tarde Roger Bastide, o TEN não era a catarsis que se exprime e se realiza no riso, já que o problema é infinitamente mais trágico: o do esmagamento da cultura negra pela cultura dominante. A primeira vitória abriu passagem à responsabilidade do segundo lance: a criação de peças dramáticas brasileiras para o artista negro, ultrapassando o primarismo repetitivo do folclore, dos autos e folguedos remanescentes do período escravocrata. Almejávamos uma literatura dramática focalizando as questões mais profundas da vida afro-brasileira. Toda razão tinha o conselho de O’Neill. Uma coisa é aquilo que o branco exprime como sentimentos e dramas do negro;
outra coisa‘é o seu até então oculto coração, isto é, o negro desde dentro. A experiência de ser negro num mundo branco‘é algo intransferível.

Enquanto não dispunha dessa literatura dramática específica, o TEN continuou trabalhando. Ao imperador Jones seguiram-se outros textos de O’Neill, a começar por Todos os filhos de Deus têm asas, encenado em 1946 no Teatro Fênix, com cenários de Mário de Murtas. Trocando de lugar comigo, Aguinaldo Camargo assumiu, desta vez, a direção dos intérpretes Ruth de Souza, Abdias do Nascimento, Ilena Teixeira, e José Medeiros. Cristiano Machado, do Vanguarda,comentou na sua crítica que “Não basta apenas representar O’Neill; o autor
de Todos os filhos de Deus têm asas exige que o saibam representar. Foi o que aconteceu no espetáculo a que assistimos no Fênix”. Mais tarde, o TEN ainda produziu, de Eugene O’Neill, O moleque sonhador e Onde está marcada a cruz.

LEIA O ARTIGO COMPLETA NO LINK:
 Teatro_Experimental_do_Negro_trajetória_e_reflexões_ABDIAS_DO_NASCIMENTO

Abdias do Nascimento foi um dos fundadores da Frente Negra Brasileira (importante movimento iniciado em São Paulo) em 1931, criou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944, foi secretário de Defesa da Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Rio de
Janeiro, deputado federal pelo mesmo Estado em 1983 e senador da República em 1997. É autor de vários livros: Sortilégio, Dramas para negros e prólogo para brancos, O negro revoltado, entre outros. Também é Professor Benemérito da Universidade do Estado de Nova York
e doutor Honoris Causa pelo Estado do Rio de Janeiro.

 

vídeo: Eliane Almeida fala sobre a importância de Abdias Nascimento e do TEN

Quem foi Abdias Nascimento e qual a importância do Teatro Experimental do Negro, o TEN, fundado em 1944? Neste vídeo, Myrian Clark entrevista a pesquisadora Eliane Almeida, do OBCOM (Observatório de Comunicação da USP), sobre a trajetória de Abdias, um escritor, artista plástico, teatrólogo, político, poeta e ativista pelos direitos dos afrodescentes brasileiros. Abdias atuou sobretudo nas áreas da educação e da cultura. Foi amigo de Nelson Rodrigues, Florestan Fernandes e alfabetizou mais de 600 pessoas por meio do Teatro Experimental do Negro. Em 2010, Abdias do Nascimento foi o indicado oficialmente ao Prêmio Nobel da Paz.

 

FliSamba – Festa Literária do Samba e Resistência Cultural no Rio de Janeiro

FliSamba é o primeiro e mais tradicional evento literário do gênero no Brasil, que reúne sambistas, escritores, poetas e empreendedores cuja produção tem como base a cultura afro-brasileira e o samba carioca. O IPEAFRO participa dos três dias da festa com a exposição de livros.
 
Trata-se de mais uma ação inovadora do Renascença Clube, que há mais de seis décadas firmou-se como um dos principais influenciadores e promotores da diversidade cultural afro-brasileira, por meio de atores e ações que se tornaram referência da produção cultural e de entretenimento do Rio de Janeiro.
 
A FlipSamba é uma realização da Prefeitura do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS e do Renascença Clube. 
 
SERVIÇO
Data: 30/11 (das 17 h às 22 h), 1 e 2/12 (das 10 h às 22 h)
Local: Renascença Clube (Rua Barão de São Francisco, 54 – Andaraí).
 
Acesse nossa programação
Saiba mais: www.flisamba.com.br

Centenário de Nelson Mandela

O combate ao apartheid se tornou uma das principais frentes de luta do movimento negro brasileiro, que passou a pressionar o governo a romper as relações diplomáticas com a África do Sul, em meados da década de 1980. Em visita ao Brasil em 1991, Nelson Mandela se encontrou com o ativista negro e parlamentar Abdias Nascimento.

“É realmente uma contradição terrível que o Brasil, o maior país negro do mundo depois da Nigéria, que tanto se proclama o berço da democracia racial e que deveria liderar internacionalmente a luta contra o apartheid, mantenha relações diplomáticas e comerciais com o governo sul-africano”, declarou em 1985 o então deputado federal Abdias do Nascimento

“Mais do que uma contradição e um infortúnio, a cumplicidade do Brasil com o apartheid é uma cegueira política de graves consequências para o futuro de nossas relações internacionais. Porque, mantendo esse tipo de endosso tácito ao governo assassino sul-africano, o Brasil se mantém aliado das forças mais retrógradas e obscurantistas do nosso tempo”, completou Nascimento.

Saiba mais sobre Nelson Mandela e seu centenário no especial da Agência Brasil: http://www.ebc.com.br/mandela100anos

 

CENTENÁRIO DE NELSON MANDELA

Há 100 anos, em 18 de julho, nascia Nelson Mandela, o grande líder da África do Sul. Após superar quase 30 anos de prisão, por duas vezes, visitou o Brasil. A matéria exibida no telejornal Repórter Brasil, da TV Brasil, relembra esses momentos históricos. A reportagem especial é de Thiago Pimenta. 

Se quiser saber um pouco mais dos bastidores da visita da Mandela ao Brasil clique abaixo e leia trecho retirado do livro Grandes Vultos que Horaram o Senado: Abdias Nascimento, escrito por Elisa Larkin Nascimento a convite do Senado Federal. Para outras informações, leia a obra completa em nosso site: http://ipeafro.org.br/acoes/grandes-vultos-abdias-nascimento/

VISITA MANDELA AO BRASIL 

ILÊ OMOLU OXUM: 50 ANOS DE TRADIÇÃO E RESISTÊNCIA

Mãe Meninazinha de Oxum (direita) na festa dos 50 anos do Ilê Omolu Oxum. Foto: Elisa Larkin Nascimento

O terreiro Ilê Omolu Oxum completou 50 anos de atividades tendo à frente a ialorixá Mãe Meninazinha de Oxum, liderança destacada na sua comunidade, pela sua luta contra a intolerância religiosa e em favor da democracia e dos direitos humanos. Ao longo dos anos realizou muitos projetos, inclusive no contexto da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), que celebrou seus 15 anos em junho.  O Ilê se lançou recentemente ao desafio da campanha Liberte Nosso Sagrado, que tem o objetivo de retomar os objetos sagrados que foram”apropriados” pelo Estado em ações da polícia, na época em que a prática do Candomblé era criminalizada explicitamente por lei. 

 

 

Mesmo com o “fim da escravidão”, eram proibidas e perseguidas as religiões e práticas ligadas aos negros, como a capoeira. Assentamentos, vestimentas, objetos sagrados e instrumentos litúrgicos eram proibidos e “confiscados” pelo Estado em operações policiais. Essa história de perseguição da religião de matriz africana ocorre desde que o primeiro africano aqui desembarcou e, de forma mais intensa, na Primeira República (1889-1930) e na Era Vargas (1930-1945), quando três artigos do Código Penal vigente na época criminalizavam essas religiões.

 

O IPEAFRO esteve presente à cerimônia que marcou os 50 anos do Ilê Omolu Oxum e saúda toda a comunidade, em especial Mãe Meninazinha de OxumAxé!