Frente Negra Brasileira


Criada em outubro de 1931 na cidade de São Paulo, a Frente Negra Brasileira (FNB) foi uma das primeiras organizações no século XX a exigir igualdade de direitos e participação dos negros na sociedade brasileira. Sob a liderança de Arlindo Veiga dos Santos, José Correia Leite e outros, a organização desenvolvia diversas atividades de caráter político, cultural e educacional para os seus associados. Realizava palestras, seminários, cursos de alfabetização, oficinas de costura e promovia festivais de musica.

Em sua sede na rua da Liberdade, n. 196, funcionava o jornal O Menelik, órgão oficial e principal porta-voz da entidade, sucedido pelo O Clarim d’Alvorada, sob a direção de José Correia Leite e Jayme de Aguiar.

A FNB ganhou adeptos em todo o país, inclusive os jovens Abdias Nascimento e Sebastião Rodrigues Alves. Seguindo o propósito de discutir o racismo, promover melhores condições de vida e a união política e social da “gente negra nacional”, a entidade teve filiais em diversas cidades paulistas e nos estados da Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Espírito Santo e Rio Grande do Sul. Estima-se que a Frente Negra Brasileira tenha chegado a aproximadamente cem mil integrantes em todo o país.

No campo da atuação política, a FNB ressaltava a importância de o negro superar a condição de cabo eleitoral, uma condição subalternizada que reforçava e ajudava a perpetuar a subalternidade de sua inserção na sociedade como um todo. Assim, a FNB incentivava o lançamento de candidaturas políticas negras. A entidade chegou a se organizar como partido político. Logo em seguida, em 1937, o Estado Novo de Getúlio Vargas fechou todos os partidos e as associações políticas, aplicando um duro golpe na Frente Negra Brasileira, que foi obrigada a encerrar suas atividades.

Para conhecer mais sobre a Frente Negra Brasileira, sugerimos a leitura do livro Negros e Política: 1888-1937, do historiador Flávio Gomes, publicado pela Zahar Editora. Além da dissertação de mestrado da historiadora Maria Claudia Cardoso Ferreira, sob o título Representações Sociais e Práticas Políticas do Movimento Negro Paulistano: as trajetórias de Correia Leite e Veiga dos Santos (1928-1937), defendida em 2005, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que em breve estará disponível em nosso site.

“Terceiro Ato: Sortilégio”: exposição no Inhotim aborda a trajetória de Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra

Em curadoria conjunta com o Ipeafro, a mostra apresenta mais de 180 obras, entre documentos, livros, trabalhos de Abdias e de artistas como Mestre Didi, Rubem Valentim, Melvin Edwards, Regina Vater, Emanoel Araujo, Hélio Oiticica e Anna Bella Geiger

Brumadinho, MG – Em curadoria conjunta com o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro- Brasileiros (Ipeafro), o Inhotim sedia um museu dentro de seu espaço e traz, desde 2021, a iniciativa idealizada por Abdias Nascimento (1914- 2011) no começo da década de 1950: o Museu de Arte Negra.

Como parte desse projeto, a exposição “Terceiro Ato: Sortilégio”, que inclui em seu título o nome da primeira peça teatral escrita por Abdias Nascimento – Sortilégio (Mistério Negro) – em 1951, e marca o princípio de sua produção artística ligada às tradições afro-diaspóricas, será inaugurada no dia 18 de março de 2023, sábado, na Galeria Mata. Terceiro Ato: Sortilégio aborda o período de exílio do artista, entre 1968 e 1981, evidenciando a difusão da arte negra brasileira no exterior.

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Como dramaturgo e depois pintor, Abdias Nascimento desempenhou um papel político e social que estabeleceu uma mudança de paradigma para a reconstituição de uma ordem epistêmica africana, usando linguagem e símbolos das tradições afro-diaspóricas. Neste sentido, Terceiro Ato: Sortilégio se organiza em cinco núcleos temáticos (Símbolos rituais contemporâneos; Nova York: início do exílio; Professor universitário; Artistas afro-brasileiros; e Orixás: concepção da vida e filosofia do universo) concentrados na maciça produção de Abdias como pintor, que se dá, sobretudo, fora do Brasil. “Nascimento continuou seu interesse pela ancestralidade africana como base para sua
produção artística. Assim, essa comunicação constante com a epistemologia das religiões afro-diaspóricas está no cerne de seu pensamento enquanto intelectual e artista”, pontua Deri Andrade, curador assistente do Inhotim.

Parte das obras expostas na mostra é de artistas brasileiros(as) que marcavam presença na cena artística estrangeira, principalmente nos EUA, em Nova York, no mesmo período em que Abdias Nascimento esteve no país, interagindo com a sua paisagem e com o seu entorno, e mostrando um reconhecimento dos territórios por onde passaram. Os núcleos da exposição buscam reafirmar a ideia do Museu de Arte Negra como um museu coletivo, feito por pessoas que cruzaram a vida de Abdias. A sala de vídeo exibe ainda o documentário Exu Rei – Abdias Nascimento (2017), de Bárbara Vento, que salienta as características de grande expressividade e comunicação de Abdias Nascimento, bem como seu dinamismo e ativismo, dialogando com o arquétipo de Exu enquanto figura de transformação e a sua influência na cultura negra e na arte brasileira.

Constituída por peças de empréstimos – a grande maioria pelo Ipeafro – e de aquisições recentes do Inhotim, Terceiro Ato: Sortilégio traz ao público mais de 180 obras, com trabalhos de Abdias Nascimento e de outros artistas como Mestre Didi, Rubem Valentim, Melvin Edwards, Regina Vater, Manuel Messias, Emanoel Araujo, Hélio Oiticica, Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Iara Rosa, Romare Bearden, LeRoy Clarke, além de livros e documentos de pesquisa de Abdias sobre o Candomblé e os Orixás.

A exposição apresenta um núcleo dedicado a Exu, Orixá presente em um grande número obras de Abdias. Exu é o Orixá da comunicação, guardião dos caminhos. “Abdias pensa os Orixás, os símbolos ritualísticos e a linguagem ancestral como ponto de conexão pan-africanista. Ele resgata em seu trabalho o sentido do Candomblé como uma concepção de vida e filosofia do universo”, explica Douglas de Freitas, curador do Inhotim.

Em maio de 1968, nas comemorações pelos 80 anos da abolição da escravidão, o Teatro Experimental do Negro realizou a exposição inaugural da coleção Museu de Arte Negra, no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. Ao longo daquele ano, Abdias Nascimento teve forte interlocução com artistas nacionais e internacionais, e o projeto Museu de Arte Negra ganhou destaque na mídia, em especial no Correio da Manhã, veículo que fazia oposição ao Regime Militar. No final do mesmo ano, Abdias Nascimento recebe uma bolsa de intercâmbio cultural nos Estados Unidos. Com a promulgação do Ato Institucional no 5, em 13 de dezembro de 1968, o Congresso é fechado e inicia-se a fase da mais violenta repressão política da ditadura militar no Brasil. Abdias já era alvo de vários inquéritos policiais militares, antes de sair do país.

Sob o risco de ser perseguido, torturado ou assassinado pelo governo brasileiro de então, o pintor se vê impedido de retornar ao seu país de origem. O fato limita as atividades do Museu de Arte Negra em solo brasileiro, mas não as do seu curador, que continua produzindo e coletando obras durante o seu exílio. É neste período que Abdias intensifica sua atividade como pintor, em cidades como Nova York e Buffalo, dialogando com as paisagens e com os
círculos artísticos desses lugares – que podem ser vistos em sua obra como representações desses espaços e também como homenagens a outras figuras de seu convívio, como Rubens Gerchman. A presença da religiosidade de matriz africana em seu trabalho também se consolida.

“É no exílio que Abdias Nascimento passa a ser internacionalmente reconhecido não só como pintor, mas principalmente como uma das personalidades brasileiras mais preparadas para o enfrentamento ao racismo em suas dimensões estética e estrutural. A experiência acumulada desde a sua participação na Frente Negra Brasileira, nos anos 1930, passando pelo Teatro Experimental do Negro, jornal Quilombo e pela criação do projeto Museu de Arte Negra, contribui para a consolidação de uma biografia que o levou, já próximo do final de sua vida, em 2009, a ser indicado oficialmente ao prêmio Nobel da Paz pelo conjunto da obra”, afirma Julio Ricardo Menezes Silva, pesquisador do Ipeafro e coordenador do Museu de Arte Negra virtual.

Terceiro Ato: Sortilégio é o penúltimo dos quatro atos da proposta, representados anteriormente pelo Primeiro Ato: Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra e pelo Segundo Ato: Dramas para negros e prólogo para brancos, partindo do legado multidisciplinar de Abdias Nascimento – poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico, professor universitário, pan-africanista e parlamentar com uma longa trajetória trilhada no ativismo e na
luta contra o racismo.

Sobre o Museu de Arte Negra
Desde os anos 1940, Abdias Nascimento e seus companheiros do Teatro Experimental do Negro (TEN) trabalhavam com a proposta de valorização social do negro e da cultura afro- brasileira por meio da arte e da educação. O TEN buscava delinear um novo estilo estético e dramatúrgico, e assim lançava as bases para a fundação do Museu de Arte Negra. Foi o TEN que, em 1950, no Rio de Janeiro, organizou o 1o Congresso do Negro Brasileiro, em que se discutiu a “estética da negritude” e modos de visibilização e valorização da produção de artistas negros e daqueles que lidavam com a representação da cultura negra em seus trabalhos. Nesse sentido, a plenária do Congresso aprovou uma resolução sobre a necessidade de um museu de arte negra. O TEN assumiu o projeto, e assim nasceu o Museu
de Arte Negra.

A coleção Museu de Arte Negra ganhou forma sendo composta por pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, dentre outras, numa pluralidade de suportes e técnicas, doadas por artistas em interlocução com os ativistas, intelectuais e artistas do TEN. Em 1955, o TEN promoveu um concurso de artes plásticas e uma exposição sobre o tema do Cristo Negro. A exposição inaugural da coleção Museu de Arte Negra abriu em 6 de maio de 1968,
no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. Nascimento aproveitou, para isso, a comemoração dos 80 anos da abolição da escravatura, ocorrida em 1888. Entretanto, ele e seu time tinham plena consciência de que as estruturas que sustentavam o regime escravista de violação de direitos e da dignidade humana se mantinham sob a forma do racismo. Sem medidas reparatórias como acesso ao emprego, à cultura e à educação, a abolição resultou
na exclusão social, econômica, política e cultural da população negra recém-libertada. Terceiro Ato: Sortilégio conta com o patrocínio do Itaú Unibanco e da Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Ministério da Cultura e Governo Federal, União e Reconstrução. Pela Petrobras, o projeto foi contemplado na Chamada Petrobras Cultural Múltiplas Expressões 2022.

Terceiro Ato: Sortilégio
Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra
Abertura: 18 de março de 2023, sábado, a partir das 9h30
Data: 18 de março a 06 de agosto de 2023
Local: Galeria Mata, Instituto Inhotim

IPEAFRO recebe prêmio Escritas Pretas na festa de lançamento da Academia Brasileira de Letras Pretas e Artes Pretas Originárias

Professora doutora Elisa Larkin Nascimento com o professor doutor Rodney Albuquerque, diretor do Instituto Federal do Rio de Janeiro, campus São João de Meriti e coordenador fundador do Festival Literário da Diáspora Africana de São João de Meriti

O IPEAFRO recebeu o prêmio Escritas Pretas – Estatueta Helena Theodoro, na categoria Aquilombamentos de Letramentos,  na festa de lançamento da Academia Brasileira de Letras Pretas e Artes Pretas Originárias, realizada em 31 de julho de 2022 no Museu do Manhã, no Rio de Janeiro. A iniciativa parte de Helena Theodoro, Éle Semog, Geni Guimarães e seus curadores Elisabete Nascimento e Alberto Fisgo. A Academia nasce frondosa como um Baobá, das sementes plantadas dos nossos passos que vêm de longe.  Em seu texto de convite, a Academia apresenta o “desafio de gestar e conceber o Quilombo Literário como uma obra coletiva aberta, uma casa de aquilombamentos, de escutatória e de acolhimento de vozes tão diversas e de diálogos intergeracionais em prol da visibilidade de escritores, artistas e instituições que promovem escrevivências  e quilombamentos antirracistas”. 

“A premiação visa romper com a ideia de entronização de prestígio e privilégio das academias de letras eurocentradas. A academia surge da urgência em promover a visibilidade dos expoentes das letras pretas e originárias, de movimentar políticas públicas para a formação de leitores e escritores jovens, adultos e crianças, bem como contribuir para a visibilidade de novos talentos num diálogo contínuo entre os acadêmicos e a sociedade civil”, explica a Dra. Elisabete Nascimento (LaborAfro), curadora da academia e da premiação, em entrevista ao portal da Associação Brasileira de Imprensa publicado em 29 de julho de 2022. A matéria completa pode ser lida e acessada mais abaixo. A seguir, no vídeo, trecho da fala da prof. Dra.Elisa Larkin Nascimento, do IPEAFRO, quando recebeu o troféu em nome da instituição. Ela subiu ao palco ao lado dos também representantes das organizações premiados Márcio Madeira, do IPCN Instituto de Pesquisa da Cultura Negra, e Vânia Sant’Anna, do Ilê Omolu Oxum e da curadora da ABL Pretas e Originárias, professora Elisabete Nascimento.

 

 

No domingo (31), às 14h, acontecerá a primeira edição do Prêmio Escritas Pretas, no Museu do Amanhã. Na ocasião acontecerá, também, a cerimônia oficial do nascimento do Quilombo Literário – Aquilombamento Brasileiro de Letras e Artes Pretas e Originárias. Serão homenageados escritores, escritoras, personalidades e instituições que desenvolvem ações literárias, acadêmicas e culturais antirracistas inspiradoras. A premiação tem como o objetivo principal, reconhecer a produção literária descentralizada de expoentes da cena literária, artística e cultural, bem como promover a visibilidade dos protagonismos pautados na implementação das leis 10639-03 e 11645-08.

A ancestralidade, por meio de seus Griôs e Candaces, Helena Theodoro, Elê Semog, Carlos de Asumpção, Geni Guimarães, Lia Vieira, Miriam Alves e seus Curadores Alberto Rodrigues (FLISGO) e Elisabete Nascimento, está à frente da primeira edição do prêmio Escritas Pretas e do nascimento marcante desta importante academia literária. Suas fundações são como uma árvore frondosa, um Baobá, cujas sementes foram plantadas pelo suor de mãos e pés pretos e originários, cujos “passos vêm de longe”.

Serão 16 categorias divididas em duas modalidades: As Escrevivências – que contemplam as produções literárias; e os Aquilombamentos – que contemplam as movimentações literárias e suas diversidades. A estatueta, por inspiração na árvore Baobá, foi esculpida em madeira pelo artista plástico gonçalense Kleber Marques. Neste ano a estatueta recebe o nome da Dra. Helena Theodoro, em reconhecimento ao protagonismo desta exímia escritora e acadêmica.

O Aquilombamento Brasileiro de Letras e Artes Pretas e Originárias, cuja estrutura é composta por seis Conselhos; aguarda o aceite da ilustre Conceição Evaristo, tendo em vista a sua inegável importância na produção literária preto brasileira, ainda mais, por ela ter sido rejeitada pela ABL. Por ser um projeto em construção, serão anunciadas apenas as cadeiras do território do Rio de Janeiro, contudo os curadores Alberto Rodrigues e a Dra. Elisabete Nascimento, afirmam que serão contemplados escritores, artistas, intelectuais de todo Brasil, de países africanos de língua portuguesa e afro diaspóricos.

“A premiação visa romper com a ideia de entronização de prestígio e privilégio das academias de letras eurocentradas. A academia surge da urgência em promover a visibilidade dos expoentes das letras pretas e originárias, de movimentar políticas públicas para a formação de leitores e escritores jovens, adultos e crianças, bem como contribuir para a visibilidade de novos talentos num diálogo contínuo entre os acadêmicos e a sociedade civil.” Explica Dra. Elisabete Nascimento (LaborAfro), curadora da academia e da premiação.

Vale destacar que um dos parceiros de práticas de aquilombamentos é o Museu do Amanhã, que no ano de 2017, foi ocupado por uma intensa programação dedicada a tornar visível as matrizes africanas. O Museu está localizado no Cais do Valongo, local laureado pela UNESCO com o título de Patrimônio da Humanidade. Este ano, em parceria com o FISGO/Festival Literário de São Gonçalo, o Museu do Amanhã abrigará três eventos: Vivências do Tempo – Matrizes africanas (dias 29 e 30/07); a primeira edição do Prêmio Escritas Pretas e a Cerimônia da ABLPretas e Originárias (31/07).

Congresso Nacional realiza audiência pública para discutir a situação de vulnerabilidade da população negra com o Covid – 19

Antes da audiência, faremos um tuitaço coletivo nesta quarta-feira (26), às 13h – 1h antes da audiência

A Comissão Externa de Enfrentamento à Covid-19 (CEXCORVI), núcleo de trabalho ligado à Câmara dos Deputados e ao Senado, realizará nesta quarta-feira (26) uma audiência pública para debater a situação da população negra e quilombola com os impactos do novo coronavírus. A audiência foi solicitada pela Frente Parlamentar Mista em Defesa da Democracia e dos Direitos Humanos com o objetivo de discutir e incidir nos impactos do coronavírus nas populações negras e quilombolas. A atividade será às 14h e acontecerá de forma virtual. A transmissão será pela TV Câmara e pelo canal do Youtube da Câmara.

A Frente Parlamentar é presidida pelo deputado Marcelo Freixo (PSOL – RJ) e é formada por representantes da Câmara, do Senado e da sociedade civil. De acordo com Paola Gersztein, consultora do Instituto de Estudos Sócio-econômicos (INESC) na coordenação do GT de Direitos Humanos da Rede de Advocacy Colaborativo (RAC), o objetivo da audiência é a escuta de especialistas que representam a população negra acerca dos impactos da pandemia e a urgente visibilização que o tema merece, para que assim sejam tomadas medidas necessárias para a proteção e a garantia de direitos. “Nosso objetivo é denunciar, visibilizar e exigir providências do Estado que sempre tratou essas vidas como supérfluas, em um genocídio que se perpetua desde que a primeira pessoa negra foi violentamente arrancada de seu território e escravizada nessas terras”, afirma.

A audiência pretende abordar o tema a partir de diferentes aspectos entre eles a Emenda Constitucional (EC 95), mais conhecida como EC do Teto de Gastos, aprovada em 2016 pelo Congresso, que resultou na perda de 20 bilhões de reais entre 2018 e 2020 para a saúde pública no Brasil. Os cortes limitaram a capacidade de uma resposta rápida e eficiente à pandemia da Covid-19, prejudicando principalmente as populações mais vulneráveis – ou seja, negras –, que dependem exclusivamente do SUS.

Para contribuir com a analise sobre os impactos da Covid-119 a audiência vai contar com a participação de especialista da área do orçamento público, Carmela Zigoni, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos – (INESC) e da especialista da área de Saúde, Márcia Alves, pesquisadora associada e membro do Grupo Temático Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

Além das especialistas a audiência vai ter a participação de representação do governo e de organismos internacionais, como a oficial de Direitos Humanos do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas (ONU), Angela Pires Terto e da Secretária Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério de Direitos Humanos (MDH), Sandra Terena.

Como representantes da sociedade civil estarão presentes Valdecir Nascimento, da Coordenação do Fórum Permanente de Igualdade Racial (FOPIR), Selma Dealdina, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e Douglas Belchior, da Coalizão Negra por Direitos.

“Nosso maior impacto são as vidas dos nossos Griôs porque são pessoas com 102, 98, 85 anos que sobreviveram a fome, ao frio e a sede, que sobreviveram a ditadura, reviveram a febre, criaram famílias, lideraram quilombos, revoltas e foram mortas pela covid-19. Esse vírus que é invisível, mas que as ações do governo são muito visíveis para dizer quem é que morre nesse país e somos nós pessoas pretas que estamos morrendo. O cenário é desolador”, comenta Selma Dealdina, da CONAQ.

Desde março, o Congresso Nacional autorizou o uso de R$ 500 bilhões de reais para enfrentamento a Covid-19 no Brasil. Deste montante, apenas 54% foram executados, o que é insuficiente considerando que é recurso específico para o enfrentamento da crise sanitária e já contamos com quatro meses do decreto de calamidade.

Os impactos da baixa execução orçamentária é um dos fatores responsáveis para que alcançássemos a triste marca de 115 mil mortos em quatro meses de pandemia. Segundo Carmela Zigoni, que é especialista em orçamento público, “se a política fosse feita de maneira responsável, certamente o número de vítimas letais da covid-19 seria menor, principalmente entre negros e quilombolas, cujos territórios não acessam as políticas públicas necessárias”.

A audiência é uma das ações estratégicas protagonizadas pela sociedade civil de fundamental importância para redução dos impactos da pandemia na vida dessas populações.

TUITAÇO

Como estratégia de aumentar a pressão no congresso, as organizações da sociedade civil estão convidando a todos para participarem do tuitaço, nesta quarta-feira (26), às 13h, 1h antes da audiência. Usando as hastags #AudiênciaPública #500bilhõesDoCovid #VidasNegrasEcovid

Para informações e conteúdos para o tuitaço: https://docs.google.com/document/d/10X6OgikRv5ksr5QlOO3l_5X16LhF5f0qPlrOAf_h_tY/edit#Vídeo de divulgação: https://drive.google.com/drive/u/0/folders/1wG4o-1omb4NlZM-czjZX7RJYk-KX-IX8

O QUE? Audiência Pública no Congresso Nacional para discutir a situação de vulnerabilidade da população negra com o Covid – 19;

QUANDO? Quarta-feira (26), às 14h;

TRANSMISSÃO? TV Câmara dos Deputados e Youtube

Ato contra o genocídio da juventude negra no RJ. Veja os vídeos

No último dia 23 de setembro, o IPEAFRO participou do ato contra o genocídio da juventude negra, promovido por diversos coletivos e organizações. Na ocasião, lembrou-se a menina Ághata Felix, de apenas 8 anos, morta em uma operação policial no Complexo do Alemão em 20 de setembro. Ela foi uma das 16 crianças mortas em 2019 pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, e uma das mais 70 pessoas que morrem violentamente no Brasil a cada dia, vítimas do racismo à brasileira. O ato se deu em frente à Assembleia Legislativo do Rio de Janeiro (ALERJ). Veja o momento da participação de algumas lideranças.

Fala de Silvia de Mendonça do Movimento Negro Unificado(MNU)


Fala de Monica Francisco, deputada estadual do PSOL eleita com 40.631 votos no pleito de 2018


Fala de Jandira Feghali, deputada federal do PCdoB eleita com 71.646 votos no pleito de 2018


Fala de Felipe Gomes, morador do Complexo de Favelas do Alemão (RJ)


Fala de Dani Monteiro, deputada estadual pelo PSOL eleita com 27.982 votos no pleito de 2018


Texto e imagens: Julio Menezes Silva

 

 

“O Teatro é uma Arma”: notas introdutórias sobre a dimensão política do Teatro Experimental do Negro, por João Gabriel Mendes da Cunha

RESUMO

O presente trabalho propõe refletir sobre a dimensão político-artística do Teatro Experimental do Negro – TEN, companhia de teatro fundada em 1944 por Abdias do Nascimento (1914 – 2011). Abdias do Nascimento possuía um grande conhecimento em diversas áreas do saber. Foi teatrólogo, jornalista, economista, professor universitário, ator, pintor, escritor, político e, acima de tudo, ativista pelos direitos humanos e civis da população negra. Participou das principais organizações do movimento negro: Frente Negra Brasileira (1931), Movimento Negro Unificado (1978), fundou o Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros – IPEAFRO (1981). Também foi Deputado Federal nos anos de 1983 a 1987 e senador da República nos anos de 1997 a 1999. Em decorrência de uma vida dedicada à militância a favor dos direitos humanos e civis da população afro-brasileira, Abdias do Nascimento foi indicado ao prêmio Nobel da Paz em 2009. Podemos concluir, então, que Abdias do Nascimento foi uma das maiores forças ativas que já atravessaram a história do Brasil.

Leia o jornal: João-Gabriel-TCC

Há 74 anos, o TEN fazia sua estreia no Municipal do Rio de Janeiro

Aguinaldo Camargo, em primeiro plano, em cena

Sob intensa expectativa, a 8 de maio de 1945, uma noite histórica para o teatro brasileiro, o TEN apresentou seu espetáculo fundador. O estreante ator Aguinaldo Camargo entrou no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde antes nunca pisara um negro como intérprete ou como público, e, numa interpretação inesquecível, viveu o trágico Brutus Jones, em o Imperador Jones, de Eugene de O’Neill. Henrique Pongetti, cronista de O Globo, registrou: “Os negros do Brasil – e os brancos também – possuem agora um grande astro dramático: Aguinaldo de Oliveira Camargo. Um anti-escolar, rústico, instintivo grande ator”.

Para celebrar a data, recordamos trecho de texto escrito por um dos fundadores do TEN, Abdias Nascimento, publicado originalmente na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 25, 1997, pp. 71-81. O material foi elaborado com a colaboração de Elisa Larkin Nascimento, diretora do IPEAFRO

TEN presente! 

Teatro Experimental do Negro: trajetória e reflexões
Por ABDIAS DO NASCIMENTO

VÁRIAS INTERROGAÇÕES suscitaram ao meu espírito a tragédia daquele negro infeliz que o gênio de Eugene O’Neill transformou em O Imperador Jones. Isso acontecia no Teatro Municipal de Lima, capital do Peru, onde me encontrava com os poetas Efraín Tomás Bó, Godofredo Tito Iommi e Raul Young, argentinos, e o brasileiro Napoleão Lopes Filho. Ao próprio impacto da peça juntava-se outro fato chocante: o papel do herói representado por um ator branco tingido de preto.

Àquela época, 1941, eu nada sabia de teatro, economista que era, e não possuía qualificação técnica para julgar a qualidade interpretativa de Hugo D’Evieri. Porém, algo denunciava a carência daquela força passional específica requerida pelo texto, e que unicamente o artista negro poderia infundir à vivência cênica desse protagonista, pois o drama de Brutus Jones é o dilema, a dor, as chagas existenciais da pessoa de origem africana na sociedade racista das Américas.

Por que um branco brochado de negro? Pela inexistência de um intérprete dessa raça? Entretanto, lembrava que, em meu país, onde mais de vinte milhões de negros somavam a quase metade de sua população de sessenta milhões de habitantes, na época, jamais assistira a um espetáculo cujo papel principal tivesse sido representado por um artista da minha cor. Não seria, então, o Brasil, uma verdadeira democracia racial? Minhas indagações avançaram mais longe: na minha pátria, tão orgulhosa de haver resolvido exemplarmente a convivência entre pretos e brancos, deveria ser normal a presença do negro em cena, não só em papéis secundários e grotescos, conforme acontecia, mas encarnando qualquer personagem – Hamlet ou Antígona – desde que possuísse o talento requerido. Ocorria de fato o inverso: até mesmo um Imperador Jones, se levado aos palcos brasileiros, teria necessariamente o desempenho de um ator branco caiado de preto, a exemplo do que sucedia desde sempre com as encenações de Otelo. Mesmo em peças nativas, tipo O demônio familiar (1857), de José de Alencar, ou Iaiá boneca (1939), de Ernani Fornari, em papéis destinados especificamente a atores negros se teve como norma a exclusão do negro autêntico em favor do negro caricatural. Brochava-se de negro um ator ou atriz branca quando o papel contivesse certo destaque cênico ou alguma qualificação dramática. Intérprete negro só se utilizava para imprimir certa cor local ao cenário, em papéis ridículos, brejeiros e de conotações pejorativas.

Devemos ter em mente que até o aparecimento de Os Comediantes e de Nelson Rodrigues – que procederam à nacionalização do teatro brasileiro em termos de texto, dicção, encenação e impostação do espetáculo – nossa cena vivia da reprodução de um teatro de marca portuguesa que em nada refletia uma estética emergente de nosso povo e de nossos valores de representação. Esta verificação reforçava a rejeição do negro como personagem e intérprete, e de sua vida própria, com peripécias específicas no campo sociocultural e religioso, como
temática da nossa literatura dramática.

Naquela noite em Lima, essa constatação melancólica exigiu de mim uma resolução no sentido de fazer alguma coisa para ajudar a erradicar o absurdo que isso significava para o negro e os prejuízos de ordem cultural para o meu país. Ao fim do espetáculo, tinha chegado a uma determinação: no meu regresso ao Brasil, criaria um organismo teatral aberto ao protagonismo do negro, onde ele ascendesse da condição adjetiva e folclórica para a de sujeito e herói das histórias que representasse. Antes de uma reivindicação ou um protesto, compreendi a mudança pretendida na minha ação futura como a defesa da verdade cultural do Brasil e uma contribuição ao humanismo que respeita todos os homens e as diversas culturas com suas respectivas essencialidades. Não seria outro o sentido de tentar desfiar, desmascarar e transformar os fundamentos daquela anormalidade objetiva dos idos de 1944, pois dizer teatro genuíno – fruto da imaginação e do poder criador do homem – é dizer mergulho nas raízes da vida. E vida brasileira excluindo o negro de seu centro vital, só por cegueira ou deformação da realidade.

Brutus Jones (Abdias Nascimento) sentado em uma cadeira segurando um revolver com a mão direita mostrando as munições com a esquerda para Smithers (Paulo Costard)

Fundação e estréia do TEN
Engajado a estes propósitos, surgiu, em 1944, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro, ou TEN, que se propunha a resgatar, no Brasil, os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, degradados e negados por uma sociedade dominante que, desde os tempos da colônia, portava a bagagem mental de sua formação metropolitana européia, imbuída de conceitos pseudo-científicos
sobre a inferioridade da raça negra. Propunha-se o TEN a trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte.

Pela resposta da imprensa e de outros setores da sociedade, constatei, aos primeiros anúncios da criação deste movimento, que sua própria denominação surgia em nosso meio como um fermento revolucionário. A menção pública do vocábulo “negro” provocava sussurros de indignação. Era previsível, aliás, esse destino polêmico do TEN, numa sociedade que há séculos tentava esconder o sol da verdadeira prática do racismo e da discriminação racial com a peneira furada do mito da “democracia racial”. Mesmo os movimentos culturais aparentemente
mais abertos e progressistas, como a Semana de Arte Moderna, de São Paulo, em 1922, sempre evitaram até mesmo mencionar o tabu das nossas relações raciais entre negros e brancos, e o fenômeno de uma cultura afro-brasileira à margem da cultura convencional do país.

Polidamente rechaçada pelo então festejado intelectual mulato Mário de Andrade, de São Paulo, minha idéia de um Teatro Experimental do Negro recebeu as primeiras adesões: o advogado Aguinaldo de Oliveira Camargo, companheiro e amigo desde o Congresso Afro-Campineiro que realizamos juntos em 1938; o pintor Wilson Tibério, há tempos radicado na Europa; Teodorico dos Santos e José Herbel. A estes cinco, se juntaram logo depois Sebastião Rodrigues Alves, militante negro; Arinda Serafim, Ruth de Souza, Marina Gonçalves, empregadas
domésticas; o jovem e valoroso Claudiano Filho; Oscar Araújo, José da Silva, Antonieta, Antonio Barbosa, Natalino Dionísio, e tantos outros.
Teríamos que agir urgentemente em duas frentes: promover, de um lado, a denúncia dos equívocos e da alienação dos chamados estudos afro-brasileiros, e fazer com que o próprio negro tomasse consciência da situação objetiva em que se achava inserido. Tarefa difícil, quase sobre-humana, se não esquecermos a escravidão espiritual, cultural, socioeconômica e política em que foi mantido antes e depois de 1888, quando teoricamente se libertara da servidão.

A um só tempo o TEN alfabetizava seus primeiros participantes, recrutados entre operários, empregados domésticos, favelados sem profissão definida, modestos funcionários públicos – e oferecia-lhes uma nova atitude, um critério próprio que os habilitava também a ver, enxergar o espaço que ocupava o grupo afro-brasileiro no contexto nacional. Inauguramos a fase prática, oposta ao sentido acadêmico e descritivo dos referidos e equivocados estudos. Não interessava ao TEN aumentar o número de monografias e outros escritos, nem deduzir
teorias, mas a transformação qualitativa da interação social entre brancos e negros. Verificamos que nenhuma outra situação jamais precisara tanto quanto a nossa do distanciamento de Bertolt Brecht. Uma teia de imposturas, sedimentada pela tradição, se impunha entre o observador e a realidade, deformando-a. Urgia destruí-la. Do contrário, não conseguiríamos descomprometer a abordagem da questão, livrá-la dos despistamentos, do paternalismo, dos interesses criados, do dogmatismo, da pieguice, da má-fé, da obtusidade, da boa-fé, dos estereótipos vários. Tocar tudo como se fosse pela primeira vez, eis uma imposição irredutível.

Cerca de seiscentas pessoas, entre homens e mulheres, se inscreveram no curso de alfabetização do TEN, a cargo do escritor Ironides Rodrigues, estudante de direito dotado de um conhecimento cultural extraordinário. Outro curso básico, de iniciação à cultura geral, era lecionado por Aguinaldo Camargo, personalidade e intelecto ímpar no meio cultural da comunidade negra. Enquanto as primeiras noções de teatro e interpretação ficavam a meu cargo, o TEN abriu o debate dos temas que interessavam ao grupo, convidando vários palestrantes, entre os quais a professora Maria Yeda Leite, o professor Rex Crawford, adido cultural da Embaixada dos Estados Unidos, o poeta José Francisco Coelho, o escritor Raimundo Souza Dantas, o professor José Carlos Lisboa.

Após seis meses de debates, aulas e exercícios práticos de atuação em cena, preparados estavam os primeiros artistas do TEN. Estávamos em condições de apresentar publicamente o nosso elenco. Revelou-se então a necessidade de uma peça ao nível das ambições artísticas e sociais do movimento: em primeiro lugar, o resgate do legado cultural e humano do africano no Brasil. O que então se valorizava e divulgava em termos de cultura afro-brasileira, batizado de “reminiscências”, eram o mero folclore e os rituais do candomblé, servidos como alimento exótico pela indústria turística (no mesmo sentido podemos inscrever hoje a exploração do samba, criação afro-brasileira, pela classe dominante branca, levada nos últimos anos ao exagero do espetáculo carnavalesco luxuoso e, pela carestia, cada vez mais longe do alcance do povo que o criou).

O TEN não se contentaria com a reprodução de tais lugares-comuns, pois procurava dimensionar a verdade dramática, profunda e complexa, da vida e da personalidade do grupo afro-brasileiro. Qual o repertório nacional existente? Escassíssimo. Uns poucos dramas superados, onde o negro fazia o cômico, o pitoresco, ou a figuração decorativa: O demônio familiar (1857) e Mãe (1859), ambas de José de Alencar; Os cancros sociais (1865), de Maria Ribeiro; O escravo fiel (1858), de Carlos Antonio Cordeiro; O escravocrata (1884) e O dote (1907), de Artur Azevedo, a primeira com a colaboração de Urbano Duarte; Calabar (1858), de Agrário de Menezes; as comédias de Martins Pena (1815-1848). E
nada mais. Nem ao menos um único texto que refletisse nossa dramática situação existencial.

Sem possibilidade de opção, O imperador Jones se impôs como solução natural. Não cumprira a obra de O’Neill idêntico papel nos destinos do negro norte-americano? Tratava-se de uma peça significativa: transpondo as fronteiras do real, da logicidade racionalista da cultura branca, não condensava a tragédia daquele burlesco imperador um alto instante da concepção mágica do mundo, da visão transcendente e do mistério cósmico, das núpcias perenes do africano com as forças prístinas da natureza? O comportamento mítico do Homem nela se achava presente. Ao nível do cotidiano, porém, Jones resumia a experiência do negro no mundo branco, onde, depois de ter sido escravizado, libertam-no e o atiram nos mais baixos desvãos da sociedade. Transviado num mundo que não é o seu, Brutus Jones aprende os maliciosos valores do dinheiro, deixa-se seduzir pela miragem do poder. Além do impacto dramático, a peça trazia a oportunidade de reflexão e debate em torno de temas fundamentais aos propósitos do TEN.

Escrevemos a Eugene O’Neill uma carta aflita de socorro. Nenhuma resposta jamais foi tão ansiosamente esperada. Quem já não sentiu a atmosfera de solidão e pessimismo que rodeia o gesto inaugural, quando se tem a sustentá-lo unicamente o poder de um sonho? De seu leito de enfermo, em São Francisco, a 6 de dezembro de 1944, O’Neill nos respondeu:

You have my permission to produce The Emperor Jones without any payment to me, and I want to wish you all the success you hope for with your Teatro Experimental do Negro. I know very well the conditions you describe in the Brazilian theatre. We had exactly the same conditions in our theatre before The Emperor Jones was produced in New York in 1920 – parts of any consequence were always played by blacked-up white actors. (This, of course, did not apply to musical comedy or vaudeville, where a few negroes managed to achieve great
sucess). After The Emperor Jones, played originally by Charles Gilpin and later by Paul Robeson, made a great success, the way was open for the negro to play serious drama in our theatre. What hampers most now is the lack of plays, but I think before long there will be negro dramatists of real merit to overcome this lack.

(O senhor tem a minha permissão para encenar O imperador Jones isento de qualquer direito autoral, e quero desejar ao senhor todo o sucesso que espera com o seu Teatro Experimental do Negro. Conheço perfeitamente as condições que descreve sobre o
teatro brasileiro. Nós tínhamos exatamente as mesmas condições em nosso teatro antes de O imperador Jones ser encenado em Nova York em 1920 – papéis de qualquer destaque eram sempre representados por atores brancos pintados de preto. (Isso, naturalmente, não se aplica às comédias musicadas ou ao vaudeville, onde uns poucos negros conseguiram grande sucesso). Depois que O imperador Jones, representado primeiramente por Charles Gilpin e mais tarde por Paul Robeson, fez um grande sucesso, o caminho estava aberto para o negro representar dramas sérios em nosso teatro. O principal impedimento agora é a falta de peças, mas creio que logo aparecerão
dramaturgos negros de real mérito para suprir essa lacuna”.)

Esta generosa adesão e lúcido conselho tiveram importância decisiva em nosso projeto. Transformaram o total desamparo das primeiras horas em confiança e euforia. Ajudaram a que nos tornássemos capazes de suprir com intuição e audácia o que nos faltava em conhecimento de técnica teatral e em recurso financeiro para enfrentar as inevitáveis despesas com cenários, figurinos, maquinistas, eletricistas, contra-regra. Encontramos em Aguinaldo de Oliveira Camargo a força dramática capaz de dimensionar a complexidade psicológica de Brutus Jones.
Ricardo Werneck de Aguiar nos ofereceu uma excelente tradução. Os mais belos e menos onerosos cenários que poderíamos pretender foram criados pelo pintor Enrico Bianco, os quais se tornaram clássicos no teatro brasileiro. A colaboração desses dois amigos brancos do teatro negro iniciou uma tradição que depois se consolidaria com a ação solidária de muitos outros amigos do TEN, entre eles o fotógrafo José Medeiros, o diretor teatral Willy Keller, o cenógrafo Santa Rosa, o diretor Léo Jusi, assim como o ator Sady Cabral, que encarnou o Smithers deO imperador Jones.

Sob intensa expectativa, a 8 de maio de 1945, uma noite histórica para o teatro brasileiro, o TEN apresentou seu espetáculo fundador. O estreante ator Aguinaldo Camargo entrou no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde antes nunca pisara um negro como intérprete ou como público, e, numa interpretação inesquecível, viveu o trágico Brutus Jones, de O’Neill. Na sua unanimidade, a crítica saudou entusiasticamente o aparecimento do Teatro Experimental do Negro e do grande ator negro Aguinaldo Camargo, comparando-o em estrutura dramática a Paul Robeson, que também desempenhou o mesmo personagem nos Estados Unidos. Henrique Pongetti, cronista de O Globo, registrou: “Os negros do Brasil – e os brancos também – possuem agora um grande astro dramático: Aguinaldo de Oliveira Camargo. Um anti-escolar, rústico, instintivo grande ator”.

Um clima de pessimismo e descrença dos meios culturais havia cercado a estréia do TEN, expresso nessas palavras do escritor Ascendino Leite:
Nossa surpresa foi tanto maior quanto as dúvidas que alimentávamos relativamente à escolha do repertório que começava, precisamente, por incluir um autor da força e da expressão de um O’Neill. Augurávamos para o Teatro Experimental do Negro um redondo fracasso. E, no mínimo, formulávamos censuras à audácia com que esse grupo de intérpretes, quase todos desconhecidos, ousava enfrentar um público que já começava a ver no teatro mais do que um divertimento, uma forma mais direta de penetração no centro da vida e da natureza humana. Aguinaldo Camargo em O Imperador Jones foi, no entanto, uma revelação.

R. Magalhães Júnior traduziu o desejo dos que não assistiram:

O espetáculo de estréia do Teatro do Negro merecia, na verdade, ser repetido, porque foi um espetáculo notável. E notável por vários títulos. Pela direção firme e segura com que foi conduzido. Pelos esplêndidos e artísticos cenários sintéticos de Enrico Bianco. E pela magistral interpretação de Aguinaldo de Oliveira Camargo no papel do negro Jones.

Infelizmente, as circunstâncias não permitiram a repetição daquele espetáculo, pois o palco do Teatro Municipal havia sido concedido ao TEN por uma única noite, e assim mesmo por intervenção direta do Presidente Getúlio Vargas, num gesto no mínimo insólito para os meios culturais da sociedade carioca.

Conquistara o TEN sua primeira vitória. Encerrada estava a fase do negro sinônimo de palhaçada na cena brasileira. Um ator fabuloso como Grande Otelo poderia de agora em diante continuar extravasando sua comicidade. Mas já se sabia que outros caminhos estavam abertos e que só a cegueira ou a má vontade dos empresários continuaria não permitindo que as platéias conhecessem o que, muito acima da graça repetida, seria capaz o talento de atores negros como Grande Otelo e Aguinaldo Camargo.

Como diria mais tarde Roger Bastide, o TEN não era a catarsis que se exprime e se realiza no riso, já que o problema é infinitamente mais trágico: o do esmagamento da cultura negra pela cultura dominante. A primeira vitória abriu passagem à responsabilidade do segundo lance: a criação de peças dramáticas brasileiras para o artista negro, ultrapassando o primarismo repetitivo do folclore, dos autos e folguedos remanescentes do período escravocrata. Almejávamos uma literatura dramática focalizando as questões mais profundas da vida afro-brasileira. Toda razão tinha o conselho de O’Neill. Uma coisa é aquilo que o branco exprime como sentimentos e dramas do negro;
outra coisa‘é o seu até então oculto coração, isto é, o negro desde dentro. A experiência de ser negro num mundo branco‘é algo intransferível.

Enquanto não dispunha dessa literatura dramática específica, o TEN continuou trabalhando. Ao imperador Jones seguiram-se outros textos de O’Neill, a começar por Todos os filhos de Deus têm asas, encenado em 1946 no Teatro Fênix, com cenários de Mário de Murtas. Trocando de lugar comigo, Aguinaldo Camargo assumiu, desta vez, a direção dos intérpretes Ruth de Souza, Abdias do Nascimento, Ilena Teixeira, e José Medeiros. Cristiano Machado, do Vanguarda,comentou na sua crítica que “Não basta apenas representar O’Neill; o autor
de Todos os filhos de Deus têm asas exige que o saibam representar. Foi o que aconteceu no espetáculo a que assistimos no Fênix”. Mais tarde, o TEN ainda produziu, de Eugene O’Neill, O moleque sonhador e Onde está marcada a cruz.

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Abdias do Nascimento foi um dos fundadores da Frente Negra Brasileira (importante movimento iniciado em São Paulo) em 1931, criou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944, foi secretário de Defesa da Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Rio de
Janeiro, deputado federal pelo mesmo Estado em 1983 e senador da República em 1997. É autor de vários livros: Sortilégio, Dramas para negros e prólogo para brancos, O negro revoltado, entre outros. Também é Professor Benemérito da Universidade do Estado de Nova York
e doutor Honoris Causa pelo Estado do Rio de Janeiro.

 

Representações sociais e práticas políticas do MN

A historiadora Maria Cláudia Cardosos Ferreira investiga as trajetórias de José Correia Leite e Arlindo Veiga dos Santos, dois ativistas da Frente Negra Brasileira no período 1928-1937.

Abdias Nascimento

Abdias Nascimento (1914-2011) já foi descrito como o mais completo intelectual e homem de cultura do mundo africano do século XX. Poeta, escritor, dramaturgo, artista visual e ativista pan-africanista, ele fundou o Teatro Experimental do Negro e o projeto Museu de Arte Negra. Suas pinturas, largamente exibidas dentro e fora do Brasil, exploram o legado cultural africano no contexto do combate ao racismo. Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York, ele foi deputado federal, senador da República e secretário do governo do Estado do Rio de Janeiro.

ABDIAS NASCIMENTO, UMA BIOGRAFIA RESUMIDA

Abdias Nascimento já foi descrito como o mais completo intelectual e homem de cultura do mundo africano do século XX. Ele foi Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York em Buffalo, EUA, onde fundou a cátedra de Culturas Africanas no Novo Mundo do Centro de Estudos Portorriquenhos, Departamento de Estudos Americanos. Foi professor visitante na Escola de Artes Dramáticas da Universidade Yale (1969-70); Visiting Fellow no Centro para as Humanidades, Universidade Wesleyan (1970-71); professor visitante do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade Temple, Filadélfia (1990-91) e professor visitante no Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade Obafemi Awolowo, Ilé-Ifé, Nigéria (1976-77). 

Abdias Nascimento recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, da Universidade Federal da Bahia, da Universidade de Brasília, da Universidade do Estado da Bahia, e da Universidade Obafemi Awolowo em Ilé-Ifé, Nigéria. 

Nasceu em março de 1914 em Franca, Estado de São Paulo, neto de africanos escravizados. Seu pai era sapateiro e músico; sua mãe doceira.  Sua família era tão pobre que, mesmo sendo filho de sapateiro, passou a infância descalço. Trabalhou desde os sete anos de idade. Completou o segundo grau, com diploma em contabilidade, em 1928. Formou-se como economista pela Universidade do Rio de Janeiro em 1938. Fez pós-graduação no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), em 1957, e em Estudos do Mar (Instituto de Oceanografia, 1961).

Alistando-se no Exército, Abdias Nascimento saiu de Franca em 1929 e foi para a capital paulista, onde participou da Frente Negra Brasileira da década dos 1930. Foi organizador do Congresso Afro-Campineiro, que protestou contra a discriminação racial e discutiu as relações raciais na cidade de Campinas, interior do Estado de São Paulo, em 1938. Participou dos movimentos de protesto contra o regime do Estado Novo, o que lhe valeu uma prisão pelo Tribunal de Segurança Nacional. Por resistir à discriminação racial na capital de São Paulo, foi preso na Penitenciária de Carandiru por dois anos. Em 1943, fundou naquela instituição o Teatro do Sentenciado, cujos integrantes, todos prisioneiros, criavam, ensaiavam e apresentavam seus próprios espetáculos teatrais; também ajudou a fundar o jornal dos prisioneiros.

Fundou no Rio de Janeiro, em 1944, o Teatro Experimental do Negro, entidade que rompeu a barreira racial no teatro brasileiro. Foi a primeira entidade afro-brasileira a ligar a luta pelos direitos civis e humanos dos negros à recuperação e valorização da herança cultural africana. Denunciando a segregação no teatro brasileiro, sobretudo a prática de pintar atores brancos de negro para desempenharem papéis dramáticos, o TEN oferecia cursos de alfabetização e de cultura geral a seus integrantes: empregados domésticos, trabalhadores e operários, desempregados e funcionários públicos diversos. Formou a primeira geração de atores e atrizes negros e favoreceu a criação de uma dramaturgia que focalizasse a cultura e a experiência de vida dos afro-brasileiros.

Sob a liderança de Abdias, o TEN organizou a Convenção Nacional do Negro (Rio de Janeiro/ São Paulo, 1945-46), que propôs à Assembléia Nacional Constituinte a inclusão de um dispositivo constitucional definindo a discriminação racial como crime de lesa-Pátria e uma série de medidas afirmativas anti-discriminatórias. O TEN realizou também a Conferência Nacional do Negro (Rio de Janeiro, 1949), e o 1o Congresso do Negro Brasileiro (Rio de Janeiro, 1950). 

Abdias Nascimento foi um dos principais organizadores do Comitê Democrático Afro-Brasileiro, entidade que lutou pela libertação dos presos políticos do Estado Novo, e editou o jornal Quilombo: Vida, Problemas e Aspirações do Negro. À frente do TEN, ele organizou, ainda, exposições artísticas e concursos de beleza. O Concurso de Artes Plásticas sobre o tema do Cristo Negro, organizado pelo TEN, realizou-se na ocasião do 36o Congresso Eucarístico Mundial no Rio de Janeiro. 

À frente do TEN, Abdias mantinha contato com os movimentos de libertação africanos e com o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Ele e os artistas e intelectuais associados ao TEN eram os principais, talvez os únicos, partidários no Brasil do movimento da Negritude liderado por Léopold Senghor, Aimé Cesaire e Léon Damas. Entretanto, eles foram excluídos da delegação oficial brasileira ao 1o Festival Mundial das Artes Negras (FESMAN), realizado no Senegal como afirmação internacional do Presidente Senhor do valor da cultura africana e da Negritude. A Carta Aberta a Dacar, escrita por Abdias Nascimento, denunciava o processo que levou a essa exclusão e foi publicada na prestigiosa revista Présence Africaine. Trata-se do primeiro protesto de um intelectual afro-brasileiro a ser ouvido por um público africano mundial contra a discriminação racial no Brasil.

Entre 1950 e 1968, Abdias Nascimento era o curador fundador do projeto de Museu de Arte Negra, iniciativa do Teatro Experimental do Negro em cumprimento de uma resolução do Congresso do Negro Brasileiro de 1950. A exposição inaugural se realizou no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, no ano de 1968.

Nesse período, Abdias atuava no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), principal força política de oposição ao regime autoritário instituído pelo golpe militar de 1964.

Pouco depois de inaugurar a exposição do Museu de Arte Negra, Abdias Nascimento viajou aos Estados Unidos, com apoio da Fundação Fairfield, com o objetivo de realizar intercâmbio entre os movimentos norte-americano e brasileiro de promoção dos direitos civis e direitos humanos da população negra. Alvo da repressão policial do regime militar, ele não pôde retornar ao país em razão das medidas autoritárias do Ato Institucional n. 5, promulgado em dezembro daquele ano. Durante 13 anos, viveu no exílio nos Estados Unidos e na Nigéria.

Abdias Nascimento participou de inúmeros eventos do mundo africano e em outros organizados por entidades afro-americanos dos Estados Unidos. Assim, ele introduziu a população negra do Brasil ao palco da história africana mundial. Até então, os eventos internacionais africanos não incluíam quase nenhuma representação da América Central ou do Sul. Abdias Nascimento participou da reunião preparatória (Jamaica, 1973) e do 6o Congresso Pan-Africano (Dar-es-Salaam, 1974). Participou do Encontro sobre Alternativas do Mundo Africano e 1o Congresso da União de Escritores Africanos (Dacar, 1976), bem como do 1o e do 2o Congressos de Cultura Negra das Américas (Cali, Colômbia, 1977; Panamá, 1980). Neste último, foi eleito vice-presidente e coordenador do 3o Congresso de Cultura Negra das Américas. 

Durante o período de exílio, desenvolveu sua extensa obra de artista visual. Sua pintura trabalha temas da cultura religiosa da diáspora africana e da resistência à escravidão e ao racismo. Suas telas foram largamente exibidas nos Estados Unidos em galerias, museus, universidades e centros culturais como o Studio Museum in Harlem, Universidades Yale e Howard, o Museu da Associação dos Artistas Afro-Americanos, o Museu Ilê-Ifé de Filadélfia, o Centro Cultural do Inner City de Los Angeles, e muitos outros (ver lista de exposições em anexo). 

Em 1978, voltou ao Brasil e participou dos protestos e atos públicos e das reuniões de fundação do Movimento Negro Unificado contra o Racismo e a Discriminação Racial, hoje MNU. Também ajudou a criar o Memorial Zumbi, organização nacional que reunia entidades de promoção dos direitos civis e humanos da população negra de todo o pais; ele serviu como o seu presidente de 1989 até 1998.

Retornando definitivamente ao Brasil em 1981, fundou o IPEAFRO – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, que organizou o 3o Congresso de Cultura Negra nas Américas (São Paulo, 1982) e o Seminário Nacional sobre 100 Anos da Luta de Namíbia pela Independência (Rio de Janeiro, 1984). Estes eventos foram as primeiras oportunidades em que o Brasil recebeu uma representação do Congresso Nacional Africano (ANC) da África do Sul e da Organização do Povo do Sudoeste da África (SWAPO) da Namíbia. O Ipeafro criou um dos primeiros cursos de preparação de professores para a introdução da história e da cultura africanas e afro-brasileiras no currículo escolar, o curso Sankofa que se realizou na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro no período de 1984 a 1995.

Durante o exílio, Abdias Nascimento trabalhou com Leonel de Moura Brizola para criar a organização que viria o Partido Democrático Trabalhista (PDT) do Brasil. Como resultado dos esforços pioneiros de Abdias, o partido incluiu a questão do racismo e da discriminação racial como prioridade no seu programa político nacional. Abdias Nascimento também liderou a organização do movimento negro dentro do partido. Entretanto, ele trabalhou de forma consistente para fazer da luta pelos direitos civis e humanos dos descendentes africanos uma causa suprapartidária e uma questão política nacional.

Candidato nas primeiras eleições do processo de abertura democrática (para governos estaduais e municipais e para o Congresso nacional), Abdias Nascimento assumiu em 1983 como primeiro deputado negro a defender a causa coletiva da população de origem africana no parlamento brasileiro. Na Câmara dos Deputados, ele introduziu projetos pioneiros de legislação antidiscriminatória e apresentou as primeiras propostas de ação afirmativa. Como integrante da Comissão das Relações Exteriores, ele propôs e articulou medidas contra o Apartheid, de apoio ao Congresso Nacional Africano (ANC) da África do Sul e ao movimento pela independência da Namíbia liderado por SWAPO, advogando o rompimento de relações com o regime sul-africano do Apartheid.

Como parlamentar brasileiro, Abdias Nascimento participou dos simpósios regionais e internacionais das Nações Unidas em apoio à Luta do Povo da Namíbia pela sua Independência (San José, Costa Rica, 1983; Nova Iorque, 1984). Também foi um dos principais atores no processo de criação da Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura para assuntos afro-brasileiros, bem como na instituição do Dia Nacional da Consciência Negra, dia 20 de novembro, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares. Com o tempo, esta data tornou-se feriado oficial em diversos municípios e Estados da Federação e hoje é reconhecido e comemorado em escolas e centros culturais em todo o país.

Em 1988, Abdias Nascimento proferiu a conferência inaugural da série W. E. B. Du Bois de palestras internacionais, organizado e patrocinado pelo Centro Cultural Pan-Africanos de Acra, Gana. No próximo ano, serviu como consultor da UNESCO para o desenvolvimento das artes dramáticas e do teatro angolano em Luanda. Participou da diretoria internacional do Festival Pan-Africano de Cultura (FESPAC) e do Memorial Gorée, ambos sediados em Dacar, Senegal. Ele também participou da diretoria internacional fundadora do Instituto dos Povos Negros, criado em 1987, pelo Governo de Burkina Faso com apoio da UNESCO.

Em 1991, Abdias Nascimento se tornou o primeiro senador afrodescendente a dedicar o seu mandato à promoção dos direitos civis e humanos do povo negro do Brasil. O governador do Rio de Janeiro, Leonel de Moura Brizola, o nomeou titular da nova Secretaria de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Governo daquele Estado, posição que desempenhou até 1994.

Terminado o seu mandato no Senado Federal, em 1999, Abdias assumiu como primeiro titular da nova Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em 1995, foi eleito Patrono do Congresso Continental dos Povos Negros das Américas, realizado no Parlamento Latino-Americano em São Paulo, na ocasião do 3o Centenário da Imortalidade de Zumbi dos Palmares.

Com um comentário ao Artigo 4o da Declaração de Direitos Humanos, participou do volume organizado e publicado pelo Conselho Federal da OAB por ocasião dos cinqüenta anos desse documento da ONU em 1998. Entre os outros comentaristas estavam personalidades como o rabino Henry Sobel, o prêmio Nobel Adolfo Pérez Esquivel, Evandro Lins e Silva, Dalmo de Abreu Dallari, João Luiz Duboc Pinaud.

Abdias Nascimento participou da Iniciativa Comparativa sobre Relações Humanas no Brasil, na África do Sul e nos Estados Unidos, organizado pela Fundação Sulista de Educação de Atlanta, EUA, envolvendo pesquisadores e intelectuais destacados, em parceria com a sociedade civil organizada desses três países em uma série de reuniões, enquetes e eventos que produziu uma série de publicações sob o título Além do Racismo (www.beyondracism.org). O projeto desempenhou um papel importante na construção de pontes e intercâmbios, preparando o caminho para a participação desses países na 3a Conferência Mundial da ONU contra o Racismo, a Xenofobia, e Outras Formas Correlatas de Intolerância realizado em Durban, África do Sul, em 2001.

No processo nacional de organização da participação brasileira na Conferência de Durban, Abdias Nascimento atuou com destaque, e no Fórum das ONGs dessa Conferência ele foi um dos conferencistas principais (Keynote Speaker).

No ano de 2001, o Centro Schomburg de Pesquisa das Culturas Negras, do sistema de Bibliotecas Públicas do Município de Nova Iorque em Harlem, homenageou Abdias Nascimento com o Prémio da Herança Africana Mundial. Realizado na sede da ONU no 75o aniversário do Centro Schomburg, o prêmio foi criado para reconhecer, naquela ocasião, seis personalidades destacadas do mundo africano, incluindo também Katherine Dunham, Dorothy Height, Amadou Mahtar M’Bow, Billy Taylor e Gordon Parks.

Abdias Nascimento também recebeu o prêmio UNESCO na categoria “Direitos Humanos e Cultura” (2001), bem como o Prêmio Comemorativo da ONU por Serviços Relevantes em Direitos Humanos (2003).

Bicentenário da Revolução do Haiti, o ano 2004 foi definido pela comunidade internacional como Ano Internacional de Celebração da Luta contra a Escravidão e de sua Abolição. Nessa ocasião, a UNESCO criou um prêmio para reconhecer dois intelectuais ativistas que dedicaram as suas vidas a essa luta e à luta contra o racismo e a discriminação racial.  As duas personalidades homenageadas com esse prêmio em dezembro de 2004, na sede da UNESCO em Paris, foram Abdias Nascimento e Aimé Cesaire.

O ano de 2004, por ocasião dos seus 90 anos, o Ipeafro realizou uma exposição retrospectiva e um colóquio internacional sobre a vida e obra de Abdias Nascimento no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro. A exposição circulou em Brasília e em Salvador, Bahia, onde foi realizada como parte da 2a Conferência Mundial de Intelectuais Africanos e da Diáspora (2006), iniciativa da União Africana e do Governo Brasileiro. Nessa ocasião, Abdias Nascimento recebeu do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a mais alta honraria outorgada pelo Governo do Brasil, a Ordem do Rio Branco no Grau de Comendador.

A Câmara dos Vereadores do Município de Salvador outorgou-lhe a cidadania soteropolitana e a Medalha Zumbi dos Palmares (2007). Ele recebeu homenagem do 4o Festival Internacional de Cinema Negro (São Paulo), bem como o Prêmio Ori da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro pelo conjunto de sua obra literária.

No ano de 2007, o Ministério da Cultura outorgou-lhe a Grã Cruz da Ordem do Mérito Cultural, e em 2009 ele recebeu do Ministério do Trabalho a Grã Cruz da Ordem do Mérito do Trabalho. Ambos são as mais altas honrarias do Governo Federal do Brasil em suas respectivas áreas.

A Universidade Obafemi Awolowo, de Ilé-Ifé, Nigéria, outorgou-lhe, em 2007, o título de Doutor em Letras, Honoris Causa.

O Conselho Nacional de Prevenção da Discriminação, do Governo Federal do México, outorgou a Abdias Nascimento o seu prêmio em reconhecimento à contribuição destacada à prevenção da discriminação racial na América Latina (2008).

Abdias Nascimento é autor de dezenas de livros publicados, em inglês e em português, e além do já mencionado jornal Quilombo editou duas revistas, Afrodiáspora (1983-87) e Thoth (1997-99). Sua peça teatral Sortilégio (Mistério Negro) (1959) constitui um marco nas obras de arte que tratam os temas das relações raciais e da identidade e cultura afro-brasileiras. Após sete anos de censura policial, estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1957 e foi produzido em inglês, nos Estados Unidos, em duas ocasiões (Universidade do Estado de Nova Iorque, 1971; Inner City Cultural Center, Los Angeles, 1975). Sua antologia Dramas para Negros e Prólogo para Brancos (1961) é a primeira coleção de obras teatrais sobre o mesmo tema e seu livro de poesia Axés do Sangue e da Esperança: Orikis (1983) constitui um marco na literatura afro-brasileira. Em anexo segue uma lista de suas obras publicadas.

Depois de seu retorno ao Brasil em 1981, continuou a exibir suas obras artísticas no Brasil e no exterior (ver lista de exposições).

ABDIAS NASCIMENTO

EXPOSIÇÕES REALIZADAS

Individuais

  1. The Harlem Art Gallery, Nova York, 1969
  2. Crypt Gallery, Columbia University, Nova York, 1969
  3. Yale University School of Art and Architecture, New Haven, 1969
  4. Malcolm X House, Wesleyan University, Middletown, CN, 1969
  5. Gallery of African Art, Washington DC, 1970
  6. Gallery Without Walls, Buffalo, NY, 1970
  7. Centro de Estudos e Pesquisas Porto-riquenhos, Universidade do Estado de Nova York, Buffalo, 1970
  8. Museu da Associação Nacional de Artistas Afro-Americanos, Boston, 1971
  9. Departamento de Estudos Afro-Americanos, Harvard, Cambridge, MA, 1972
  10. Studio Museum in Harlem, Nova York, 1973
  11. Langston Hughes Center, Buffalo, NY, 1973
  12. Fine Arts Museum, Syracuse, NY, 1974
  13. Galeria da Universidade Howard, Washington DC, 1975
  14. Inner City Cultural Center, Los Angeles, 1975
  15. Ile-Ife Museum of Afro-American Culture, Philadelphia, 1975
  16. Galeria do Banco Nacional, São Paulo, Brasil, 1975
  17. Galeria Morada, Rio de Janeiro, Brasil, 1975
  18. Museu de Artes e Antiguidades Africanas e Afro-Americanas, Center for Positive Thought, Buffalo, NY, 1977
  19. El Taller Boricua e Caribbean Cultural Center, Nova York, 1980
  20. Galeria Sérgio Milliet-IPEAFRO, Fundação Nacional das Artes – FUNARTE, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro, Brasil, 1982
  21. Palácio da Cultura (Prédio Gustavo Capanema), Ministério da Cultura, IPEAFRO, Rio de Janeiro, Brasil, 1988
  22. Salão Negro, Congresso Nacional, Brasília, DF, 1997
  23. Galeria Debret, Paris, 1998
  24. José Bonifácio Cultural Center-IPEAFRO, Rio de Janeiro, 2002
  25. Solar Grandjean de Montigny, PUC-Rio-IPEAFRO, Rio de Janeiro, 2004
  26. Arquivo Nacional (antiga Casa da Moeda)-IPEAFRO, Rio de Janeiro, 2004-2005
  27. Galeria Athos Bulcão, anexo ao Teatro Nacional, IPEAFRO, Brasília, DF, 2006
  28. Caixa Cultural Salvador/ II Conferência Mundial dos Intelectuais Africanos e da Diáspora, IPEAFRO, 11 de julho a 29 de agosto de 2006
  29. V Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE)-IPEAFRO, Rio de Janeiro, janeiro de 2007
  30. Centro Cultural Justiça Federal-IPEAFRO, Rio de Janeiro, 2011
  31. SESC São João de Meriti-IPEAFRO, RJ, 2011
  32. Biblioteca Leonel de Moura Brizola, IPEAFRO, Duque de Caxias, RJ, 2011
  33. Casa de Cultura de Maricá, IPEAFRO, RJ, 2011-2012
  34. Kongi’s Harvest Gallery Museum, Freedom Park| Black Heritage Festival-IPEAFRO, Lagos, Nigéria, 2013
  35. Museu Godwin-Ternbach-IPEAFRO, Universidade da Cidade de Nova York, 2014
  36. Ocupação Abdias Nascimento, Itaú Cultural-IPEAFRO, São Paulo, 2016-2017
  37. 10º Congresso de Pesquisadores Negros (X COPENE-IPEAFRO), Uberlândia, MG, 2018
  38. Centro de Artes da Maré, Favela Nova Holanda, IPEAFRO, Rio de Janeiro, 2019
  39. Museu de Arte Contemporânea (MAC)-IPEAFRO, Abdias Nascimento: um espírito libertador,  Niterói, RJ, 2019
  40. Inhotim-IPEAFRO, Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra, em quatro atos. Inaugurado o primeiro ato em 4 de dezembro de 2021
  41. Museu de Arte de São Paulo (MASP), Abdias Nascimento: um artista panamefricano, 2022
  42. Festival Sonsbeek, Stedelijk Museum of Contemporary Art, programada oficialmente para a temporada Verão 2022 

Coletivas 

  1. Museu Everson de Artes, Syracuse, NY, 1972
  2. Galeria Salomé, Nova Orleans, LA, 1973
  3. Rainbow Sign Gallery, Berkeley, CA, 1975
  4. Artists ’79, sede das Nações Unidas, Nova York, 1979
  5. O Rio do Samba, Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro, 2018-2019
  6. Histórias Afro-Atlânticas, Museu de Arte de São Paulo (MASP)/ Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, 2018
  7. In the Fullness of Time: Painting in Buffalo, 1832-1972, Burchfield Penney Arts Center, Buffalo, NY, EUA, 8/11/2019 a 31/05/2020
  8. Escrito no Corpo, Galeria Fortes D’Aloia e Gabriel, Espaço Carpintaria, Rio de Janeiro, 2020 
  9. Afro-Atlantic Histories. Turnée nos EUA de Histórias Afro-Atlânticas, 2021-2024: Museu de Belas Artes Houston (MFAH); National Gallery (Washington, DC); Los Angeles County Museum of Art; Dallas Museum of Art
  10. Engraved into the Body, Galeria Fortes D’Aloia e Gabriel / Galeria Tanya Bonakdar, Nova York, 2021
  11. This Must Be the Place: Latin American Artists in New York, 1965–1975. Americas Society, Nova York, 2021-2022

Coleções Permanentes

  1. Museu de Artes e Antiguidades Africanas e Afro-Americanas, Centro pelo Pensamento Positivo, Buffalo, NY (duas telas). Quando essa instituição fechou, a direção encaminhou as obras para o Instituto Molefi K. Asante, Filadélfia, EUA
  2. Instituto de Estudos Latino-Americanos, Universidade Columbia, Nova York, EUA
  3. Museu de Arte de São Paulo (MASP)
  4. Pinacoteca de São Paulo

ABDIAS NASCIMENTO

OBRAS PUBLICADAS SELECIONADAS

 

Livros 

Abdias Nascimento, um espírito libertador. Catálogo de exposição de pinturas. Museu de Arte Contemporânea de Niterói / IPEAFRO, 2020.

O Quilombismo. Documentos de uma Militância Pan-Africanista, 3a. ed. Com textos de Kabengele Munanga, Elisa Larkin Nascimento e Valdecir Nascimento. São Paulo: Editora Perspectiva / IPEAFRO, 2019.

O Genocídio do Negro Brasileiro, 3a. ed. Com textos de Wole Soyinka, Florestan Fernandes, Elisa Larkin Nascimento. São Paulo: Editora Perspectiva / IPEAFRO, 2016.

Ocupação Abdias Nascimento. Catálogo de exposição no Itaú Cultural. São Paulo: Itaú Cultural / IPEAFRO, 2016.

O Griot e as Muralhas, com Éle Semog. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

Abdias Nascimento 90 Anos, Memória Viva. Catálogo de exposição, Caixa Cultural Salvador. Textos em português, francês e inglês. Rio de Janeiro: IPEAFRO, 2006.

Quilombo: Edição em fac-símile do jornal dirigido por Abdias do Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2003.

O quilombismo, 2a ed. Brasília/ Rio de Janeiro: Fundação Cultural Palmares/ OR Produtor Editor, 2002 (362 pags).

 O Brasil na Mira do Pan-Africanismo. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais/ Editora da Universidade Federal da Bahia EDUFBA, 2002 (342 pags).

Orixás: os Deuses Vivos da África/ Orishas: the Living Gods of Africa in Brazil.  Rio de Janeiro/ Philadelphia: Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros/Temple University Press, 1995.

A Luta Afro-Brasileira no Senado. Brasília: Senado Federal, 1991 (35 pags).

Nova Etapa de uma Antiga Luta. Rio de Janeiro: Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Negras – SEDEPRON, 1991 (32 pags).

Africans in Brazil: a Pan-African Perspective, com Elisa Larkin Nascimento. Trenton: Africa World Press, 1991 (218 pags).

Brazil: Mixture or Massacre, trad. Elisa Larkin Nascimento.  Dover: The Majority Press, 1989 (224 pags).

Combate ao Racismo, 6 vols. Brasília: Câmara dos Deputados, 1983-86. (Discursos e projetos de lei.) (Aproximadamente120 pags em cada volume.)

Povo Negro: A Sucessão e a “Nova República”. Rio de Janeiro: Ipeafro, 1985 (68 pags).

Jornada Negro-Libertária. Rio de Janeiro: Ipeafro, 1984 (29 pags).

A Abolição em Questão, co-autoria com José Genoíno e Ari Kffuri. Sessão Comemorativa do 96o Aniversário da Lei Áurea (9 de maio de 1984). Brasília: Câmara dos Deputados, 1984 (40 pags).

Axés do Sangue e da Esperança: Orikis. Rio de Janeiro: Achiamé e RioArte, 1983. (Poesia, 109 pags.)

Sitiado em Lagos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981 (111 pags).

O Quilombismo.  Petrópolis: Vozes, 1980 (281 págs).

Sortilégio II: Mistério Negro de Zumbi Redivivo.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. (Peça de teatro, 141 pags.)

Sortilege: Black Mystery, trad. Peter Lownds. Chicago: Third World Press, 1978.

Mixture or Massacre, trad. Elisa Larkin Nascimento. Búfalo: Afrodiaspora, 1979 (224 pags).

O Genocídio do Negro Brasileiro.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978 (184 pags).

“Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality, trad. Elisa Larkin Nascimento, 2a ed.  Ibadan: Sketch Publishers, 1977 (178 pags).  

“Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality, trad. Elisa Larkin Nascimento, 1a ed. Ile-Ife: University of Ife, 1976 (83 pags).

Sortilégio (mistério negro).  Rio de Janeiro: Teatro Experimental do Negro, 1959. (Peça de teatro.)

Organização de antologias, revistas, e obras coletivas 

Thoth:Pensamento dos Povos Africanos e Afrodescendentes, nos. 1-6. Brasília: Senado Federal, 1997-98. 

Afrodiaspora: Revista do Mundo Africano, nos. 1-7.  Rio de Janeiro: IPEAFRO, 1983-86.

O Negro Revoltado, 2a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982 (403 pags).

Journal of Black Studies, ano 11, no. 2 (dezembro de 1980) (número especial sobre o Brasil).

Memórias do Exílio, org. em colaboração com Paulo Freire e Nelson Werneck Sodré. Lisboa: Arcádia, 1976.

Oitenta Anos de Abolição.  Rio de Janeiro: Cadernos Brasileiros, 1968.

Teatro Experimental do Negro: Testemunhos.  Rio de Janeiro: GRD, 1966 (170 pags).

Dramas para Negros e Prólogo para Brancos. Rio de Janeiro: TEN, 1961 (419 pags).

Relações de Raça no Brasil.  Rio de Janeiro: Quilombo, 1950 (75 pags).

Participação em antologias e obras coletivas

“Quilombismo, um conceito emergente do processo histórico-cultural da população afro-brasileira”. In: Elisa Larkin Nascimento (org.), Afrocentricidade, Uma abordagem epistemológica inovadora, Coleção Sankofa v. 4. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2004.

“O negro e o parlamento brasileiro”, co-autoria com Elisa Larkin Nascimento. In Munanga, Kabengele, org., O negro na história do Brasil. Brasília: UnB/ Fundação Cultural Palmares, 2004, pags. 105-151.

“Comentário ao Artigo 4o”, in Direitos Humanos: Conquistas e Desafios. Brasília: Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil/ Comissão Nacional de Direitos Humanos, 1998.

“Quilombismo: the African-Brazilian Road to Socialism,” in Asante, Molefi K. e Abarry, Abu S., orgs., African Intellectual Heritage: a Book of Sources.  Philadelphia: Temple University Press, 1996.

Sortilege: Black Mystery, trad. Peter Lownds. Callaloo, A Journal of African-American and African Arts and Letters, v. 18, n. 4 (1995). Special Issue, African Brazilian Literature. Johns Hopkins University Press. 

Sortilege II: Zumbi Returns (peça dramática) in Crosswinds: an Anthology of African Diaspora Drama, ed. de William B. Branch.  Bloomington: Indiana University Press, 1991.

“Quilombismo: the African-Brazilian Road to Socialism,” in African Culture: the Rhythms of Unity, ed. Molefi K. Asante e Kariamu W. Asante.  Trenton: Africa World Press, 1990.  (Primeira edição publicada em 1987 pela Greenwood Press.)

“Teatro Negro del Brasil: una Experiencia Socio-Racial,” in Popular Theater for Social Change in Latin America, a Bilingual Anthology, ed. by Gerardo Luzuriaga.  Los Angeles: UCLA Latin American Studies Center, 1978.

“African Presence in Brazilian Art,” Journal of African Civilizations 3:2 (novembro de 1981). 

“Reflections of an Afro-Brazilian,” Journal of Negro History LXIV:3 (verão 1979).

“Afro-Brazilian Theater, a Conspicuous Absence,” Afriscope VII:1 (Lagos, janeiro de 1977). 

“Afro-Brazilian Art: a Liberating Spirit,”  Black Art: an International Quarterly I:1 (outono de 1976).

“Open Letter to the First World Festival of Negro Arts,” Presence Africaine XXX:58 (verão de 1968).

“Carta Aberta ao Festival Mundial das Artes Negras,” Tempo Brasileiro, ano IV, número 9/10 (abril-junho de 1966).

“The Negro Theater in Brazil,” African Forum II:4 (primavera de 1967).

“Mission of the Brazilian Negro Experimental Theater,” The Crisis 56:9 (outubro de 1949). 

Coluna Ipeafro no Pensar Africanamente saúda a nossa ancestralidade

Coluna IPEAFRO está de volta no canal Pensar Africanamente. Em pauta: um diálogo sobre o Nosso Sagrado, aquele onde a Tradição dos Orixás, praticada nas casas religiosas de matriz africana, exerce um papel para além do campo religioso atuando junto à sociedade civil na defesa da cidadania, das minorias, na luta antirracista e contra todas as formas de desigualdades. È dia 07 de março, às 19h30, ao vivo pelo canal YouTube ou pelo Facebook Pensar Africanamente. Link direto: https://www.youtube.com/watch?v=w1dvGZbAxqc.  Sorteio de dois exemplares do livro O Tradição dos Orixás, org. de Edlaine de Campos Gomes e Luis Cláudio de Oliveira. Ipeafro / Mar de Ideias, 2019.

Participantes:

Iya Sandrali Bueno
Iyalorixá, Psicóloga. Especialista em Criminologia. Servidora Publica. Ativista em Direitos Humanos. Antirracista. Feminista. Secretaria executiva do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul. Coordenadora Estadual do GT Mulheres de Axé da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (RENAFRO), Nucleo RS. Conselheira do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas. Coordenadora de Formação do Movimento Negro Unificado/ RS. Integra o Coletivo Político NegrAtividade e idealizadora do Coletivo Antirracista o Melhor de Cada Uma. Autora do livro Pelo direito de ser quem sou: um ser coletivo, Porto Alegre, RS: Zouk, 2022. 

Adaílton Moreira
Aos 56 anos é articulador da campanha #LutoNaLuta, contra o racismo e os crimes de racismo religioso / intolerância religiosa. Babá Adailton Moreira é Coordenador Nacional de Homens de Axé da RENAFRO-RJ. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (ProPED) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), tendo defendido em 2018 a dissertação “Infância nas Redes Educativas de Iemanjá no Ilê Omiojuarô”.  Recebeu a medalha de Mérito Pedro Ernesto da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, das mãos da vereadora Marielle Franco, em novembro de 2017. Em abril de 2018 recebeu o Prêmio Culturas Populares do MINC – Edição Leandro Gomes de Barros, in memoriam de sua mãe biológica, Mãe Beata de Yemonjá. Babá Adailton segue mantendo o legado de sua mãe à frente do espaço sagrado construído por Mãe Beata, a Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuarô, localizada em Miguel Couto, Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro.

Elisa Larkin Nascimento, autora do texto que abre o livro sorteado, é mestre em Direito e em Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Nova York (EUA) e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), e foi parceira de Abdias Nascimento durante os últimos 38 anos de sua vida. Juntos fundaram, em 1981, o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO). Elisa conceituou o fórum Educação Afirmativa Sankofa e escreveu diversos livros, entre eles O Sortilégio da Cor; os quatro volumes da coleção Sankofa; Adinkra, Sabedoria em Símbolos Africanos e Abdias Nascimento, A Luta na Política. É curadora do Museu de Arte Negra online e participa da curadoria da exposição Abdias Nascimento e Museu de Arte Negra, realizada em parceria do Ipeafro com o Inhotim (2021-23). 

Performance de Milsoul Santos. Autor dos livros Pássaro preto e Amor sem miséria, milita politicamente através da arte.

Sorteio: Para participar do sorteio você precisa ter uma conta no Instagram. Até às 21h do dia do sorteio, você vai fazer o seguinte:

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ATENÇÃO: não é permitido marcar contas fakes. Lembre-se: O prazo é até as 21h do dia do evento. Boa sorte!!!